A Grande Descoberta

César Manuel Malainho de Oliveira

A Grande Descoberta

2.ª Edição


Parte I

A Grande Descoberta


Esta história é apresentada sob a forma de um suposto diálogo entre dois amigos — Tom e Roger — com visões completamente diferentes sobre a vida.

Após um silêncio momentâneo, Roger pergunta:

— Tom, por que motivo continuas a defender a existência de Deus? Não há comprovação científica de Deus, logo não acredito nele. Eu só acredito naquilo que vejo e no que a ciência comprova. Prepara-te meu amigo, prepara-te para o fim, para o nada.

Tom ri-se do tom tão dramático do amigo e pergunta:

— Então vamos para o nada? O que é o nada?

Roger recebe a pergunta do amigo como um soco no estômago e, surpreendido pela questão formulada por Tom, responde:

— O nada é o nada, é a não existência, é o vazio.

Tom, que já esperava pela resposta do amigo, pergunta:

— Tu dizes que a existência de Deus não tem comprovação científica, logo não faz sentido acreditar na sua existência. Mas, e o nada, o nada tem comprovação científica?

Roger, mais uma vez surpreendido pela questão de Tom, responde:

— Tom, deixa-te de filosofar. Essa tua pergunta não tem qualquer sentido lógico. Claro que o nada existe, toda a gente sabe disso.

Tom pergunta, ainda:

— Como pode o nada ter comprovação científica se não existe? Sim, o nada não existe, caro Roger. E apesar de o nada não existir, que, obviamente, não tem comprovação científica, ainda assim, acreditas na sua existência.

— Não existe? — Pergunta Roger, incrédulo com a afirmação do amigo — Claro que existe. Se existe alguma coisa, o nada também tem que existir. O nada é o oposto do tudo.

— Agora és tu quem está a filosofar, Roger. O nada não existe. Como não existe, não pode ter comprovação científica. Pensa comigo: o homem conhece tudo sobre tudo?

Roger responde rapidamente:

— É claro que não, que disparate, estamos muito longe de conhecer tudo sobre tudo, se é que algum dia seremos capazes de saber tudo sobre tudo.

Tom pergunta, então:

— Como podes, nesse caso, acreditar na existência do nada? Como podes falar no nada, se não conheces o tudo? Como podes considerar que o nada seja o destino final da alma?

Roger fica espantado com o argumento do amigo e diz:

— Nunca tal coisa me passou pela cabeça.

— É natural — responde Tom — Poucas são as pessoas que se dedicam a cultivar tais raciocínios. Quase todas as pessoas vivem uma vida muito mecânica: nascem, crescem e partem desta vida sem nunca se terem questionado sobre esta ordem de ideias.

Roger, agarrando-se a uma tábua de salvação como um náufrago para sustentar o seu pensamento ateísta, diz:

— Espera aí, Tom. Há qualquer coisa que te está a escapar.

— O quê? — Pergunta o amigo.

— A ciência fala do vácuo e, mais recentemente, a física quântica fala no vácuo quântico. Isso não é o nada? — Pergunta Roger.

— Para quem não conhece o tudo, sim, o vácuo, ou o vácuo quântico, até poderia ser o nada. Mas não é. E como já concluímos, ninguém sabe tudo sobre tudo.

Roger, não completamente satisfeito, insiste:

— Mas Tom, a física quântica não mostra que há eventos que acontecem sem causa? Partículas que surgem do vácuo espontaneamente, sem razão aparente? Isso não seria uma prova de que o acaso existe e que o nada pode produzir algo?

Tom responde com calma:

— É uma pergunta excelente, Roger, e mostra que te informas. Mas há aqui dois erros que importa separar. Primeiro, o vácuo quântico não é o nada — é um campo de energia com propriedades bem definidas, regido por leis matemáticas precisas. Um campo de energia com leis não é o nada, é qualquer coisa. Segundo, quando a física quântica fala em eventos sem causa aparente, a palavra-chave é aparente. Significa que ainda não conhecemos a causa, não que a causa não existe. É o mesmo princípio do nada e do acaso — exprimem o limite do nosso conhecimento, não a ausência de realidade.

Roger fica em silêncio por uns momentos e diz:

— Então o vácuo quântico, longe de ser uma prova do nada, é mais uma prova de que há sempre algo em vez de nada.

— Exatamente — diz Tom — A questão não é o que a física quântica ainda não explica, mas que tudo o que ela descobre confirma a mesma coisa: há sempre ordem, há sempre lei, há sempre algo.

— Sim, isso é verdade, mas assim como eu não posso dizer que o nada existe, tu também não podes afirmar que o nada não existe. Certo?

Tom olha para o amigo e diz:

— Meu amigo Roger, de certa forma, posso sim, porque até hoje não existe qualquer evidência científica que possa apontar-nos a existência do nada. E já percebemos que o vácuo ou o vácuo quântico não são evidências da existência do nada. Por outro lado, se tu pensares no nada, percebes que não passa de um conceito completamente abstrato, desprovido de qualquer sentido. É mesmo um absurdo.

Roger está impressionado com a argumentação do amigo. Nunca esperou que a conversa o levasse a bater de frente com as suas convicções e a revê-las.

Quando Roger estava prestes a falar, Tom diz:

— Existem expressões completamente absurdas que as pessoas costumam usar. Certas pessoas dizem, por exemplo, eu quero um pão com nada ou quero um pão sem nada. O correto seria dizerem: eu quero um pão sem coisa alguma. Um pão sem coisa alguma é um pão desprovido de qualquer outro alimento ou ingrediente.

— Faz sentido — diz Roger — Muitas vezes utilizamos determinadas expressões a que não prestamos a mais pequena atenção. São expressões absurdas, repetidas de geração em geração, sem que sejam abolidas do vocabulário quotidiano.

— Grande verdade, Roger. Quando não sabemos que estamos a usar uma expressão absurda, como podemos eliminá-la do nosso vocabulário?

Roger, sentando-se confortavelmente no sofá, diz:

— Confesso que fiquei muito impressionado com a tua argumentação sobre a questão do nada.

Tom pega no copo de vinho do Porto que o amigo lhe passou para a mão e diz:

— É compreensível que assim seja. Um dos grandes pilares do ateísmo foi destruído. Sim, refiro-me ao niilismo.

Roger, curioso, pergunta:

— Niilismo? Explica-me melhor.

— O niilismo é a crença de que a existência não tem significado, propósito ou valor. E o seu fundamento último é precisamente o nada — a ideia de que no fim tudo se dissolve no vazio. Se o nada não existe, o niilismo perde o chão em que assenta. Não há como defender que a existência é sem sentido, se não há nada para a receber no fim.

Roger, tomando um gole do seu vinho, diz:

— Mas eu continuo a ser ateu. Não é porque o nada não existe que eu abandono a minha convicção.

Tom ri-se e diz:

— Eu esperava isso de ti, meu amigo. Então, após a morte, para onde vamos? Já não podes dizer que vamos para o nada.

Roger já esperava a pergunta do amigo e diz:

— É verdade, já não posso dizer que vamos para o nada. Mas deixamos de existir, simplesmente.

Tom, pegando em alguma coisa para comer, afirma:

— Não, caro Roger! Nem o corpo nem a alma deixam de existir. O corpo é transformado; a alma é questão para outra conversa.

Roger, intrigado, diz:

— Transformado? Explica-me isso.

— A ciência ela própria nos diz que a energia não se cria nem se destrói, apenas se transforma. O corpo físico, após a morte, não desaparece — os seus elementos regressam à natureza, transformam-se. A matéria que nos constitui existia antes de nós e continuará a existir depois de nós. Portanto, nem no plano físico há aniquilação. Há transformação. A questão da alma, essa sim, ficará para outra conversa.

Roger ri-se e, pegando também em alguma coisa para comer, diz:

— Se a alma é criação de Deus e Deus não existe, logo não existe alma nenhuma.

— Falaremos da alma em outra conversa. — Diz Tom — Responde-me a uma pergunta...

— Qual? — Perguntou Roger.

— Quem, ou o que, criou o universo?

Roger pega no seu copo, bebe um gole de vinho, e afirma:

— O universo é obra do acaso e das leis que lhe deram origem e o regem.

Tom responde dizendo:

— Amigo Roger, obra do acaso! Esse é outro pilar do ateísmo que também é facilmente destruído.

— Tom, explica-me o teu ponto de vista relativamente ao universo não ser obra do acaso.

— Sim, Roger, o universo não pode ser obra do acaso.

— Porquê? — Pergunta Roger — Como podes afirmar isso?

— Quando alguém afirma que tal coisa é obra do acaso, significa que essa mesma coisa é fruto do acaso? Ou será que quem afirma isso não compreende a razão ou o motivo por que tal coisa aconteceu? Teria a pessoa compreensão de tudo aquilo que se relaciona com o que fez que tal coisa acontecesse? É mais uma vez o mesmo princípio, caro Roger. Como podemos falar na existência do acaso, se não compreendemos tudo sobre tudo. O nada e o acaso são palavras, são expressões que revelam o desconhecimento de alguma coisa.

Roger, mais uma vez, estava surpreendido pela argumentação do amigo. Por momentos não foi capaz de articular qualquer resposta. Levou algum tempo para processar a resposta de Tom. Após algum tempo, ele diz:

— Sim, muitas vezes chamamos de acaso a certos acontecimentos que não conhecemos ou não compreendemos. Mas não haverá situações em que seja mesmo obra do acaso?

Tom, que já esperava a pergunta do Roger, diz:

— É o mesmo princípio do nada, Roger! O acaso é uma expressão de linguagem que as pessoas usam para se referirem a uma causa desconhecida do acontecimento.

Roger fica pensativo e diz:

— Se o acaso não existe, se é apenas uma expressão da linguagem, produto do desconhecimento da causa de determinado acontecimento, como explicas que o universo esteja repleto de caos, de desordem, de estrelas que são destruídas, absorvidas por buracos negros, de eventos cósmicos destruidores? Como podes acreditar que o universo é obra de um ser inteligente?

Tom abre um sorriso e diz:

— A minha mulher assusta-se quando vê o meu escritório e diz que tudo está desorganizado, desarrumado, um caos. No entanto, se ninguém mexer em nada, eu sei onde cada coisa está. Quando ela arruma ou organiza o meu escritório, eu não sei de coisa alguma. Só volto a saber quando volto a colocar tudo segundo a minha ordem.

Roger dá uma gargalhada e diz:

— Mas Tom, essa analogia pressupõe precisamente o que estás a tentar provar — que há um ser inteligente por detrás da ordem!

Tom sorri e responde:

— Tens razão, Roger, e é exatamente esse o ponto. A analogia não é uma prova, é uma ilustração. O que ela mostra é que a aparência de caos depende sempre do ponto de observação. A ordem do meu escritório parece caos à minha mulher porque ela não conhece o meu sistema. Da mesma forma, o que nos parece caos no universo pode ser simplesmente uma ordem que a nossa inteligência ainda não é capaz de compreender. E repara — mesmo aquilo a que chamamos caos no universo obedece a leis matemáticas precisas. Os buracos negros, as supernovas, a expansão do universo — tudo segue leis. E as leis, como veremos, não surgem do acaso.

Roger dá uma gargalhada estrondosa e diz:

— Meu amigo, o universo é bem maior e mais complexo do que o teu escritório!

Tom e Roger não conseguiam parar de rir.

— Sim, é verdade — diz Tom — O universo é bem maior. Mas se pensares um pouco, perceberás que a inteligência do homem mais inteligente da Terra é incapaz de entender a ordem do universo. E como não a entendemos, parece-nos errado, um acaso.

Mais uma vez, Roger é apanhado de surpresa pela argumentação do amigo.

— Sim, mas as leis que regem o universo não seriam capazes de o criar e de mantê-lo?

— As leis, os códigos, são fruto de uma inteligência. As coisas são como são porque algo as fez serem assim. De onde saíram essas leis? Do nada? Do acaso? Já chegámos à conclusão de que o nada e o acaso são apenas expressões de linguagem.

Roger, pensativo, diz:

— Tens razão. Uma lei implica sempre um legislador. Não conheço nenhuma lei — nem física, nem matemática, nem moral — que tenha surgido por si mesma, sem uma inteligência por detrás dela.

Tom acena com a cabeça e diz:

— Exatamente. E repara na sofisticação dessas leis. A constante gravitacional, a velocidade da luz, a carga do eletrão — se qualquer um destes valores fosse ligeiramente diferente, o universo não existiria, as estrelas não se formariam, a vida seria impossível. A probabilidade de todas estas constantes terem o valor exato que têm, por acaso, é matematicamente indistinguível de zero. Os próprios físicos chamam a isto o problema do ajuste fino do universo.

Tom, após uma pausa, continua:

— Certas pessoas pensam que a raça humana foi criada por extraterrestres. Pensam elas que seres de outros mundos interferiram e criaram o ser humano.

— Que absurdo! — Diz Roger.

— Não vamos agora debruçar-nos sobre a questão da existência de vida inteligente em outros mundos. Vamos sim, por uns segundos, admitir que essas pessoas estão com razão. Sim, vamos admitir que foram seres de outros mundos que criaram a raça humana. A pergunta que se impõe é: quem ou o que criou esses seres de outros mundos? Se as pessoas julgam que com esse argumento podem desmentir a existência de Deus, sai-lhes o tiro pela culatra.

— Sim, é verdade! — Diz Roger — É uma boa pergunta.

— Há pessoas que pensam que a vida existente na Terra foi trazida por asteroides que aqui caíram, vindos do universo. Vamos, por um segundo, admitir que sim, que foi trazida do espaço para aqui. A pergunta que se coloca é: o que criou essa vida que veio do universo? É o mesmo princípio dos que afirmam que seres de outros mundos criaram a raça humana.

— Pois, realmente é o mesmo princípio. De onde quer que venha a vida, ela tem que vir de algum lado.

— Pois. Como disse Voltaire: Se Deus não existisse, tinha que ser criado. Voltaire disse isso, porque sem ele o universo não poderia existir e nós não poderíamos estar aqui a ter esta conversa.

Roger, curioso, pergunta:

— Voltaire? Não era ele um dos maiores críticos da religião?

— Exatamente. E é precisamente por isso que é tão significativo. Voltaire não era religioso, era deísta — acreditava numa inteligência criadora pela força da razão, não pela fé. E foi precisamente pela razão que chegou a essa conclusão. O que nos mostra que este caminho que estamos a percorrer não é exclusivo de crentes ou religiosos. É um caminho aberto a qualquer pessoa que pense com rigor.

— Estou a entender o teu ponto de vista. Mas, diz-me: tens como provar que o universo não é obra do acaso?

— Claro! — Diz Tom — O simples facto de que o acaso não existe já é uma prova por si mesma. Mas ainda poderia acrescentar uma outra.

— Qual? — Pergunta Roger.

— Caro Roger faz o seguinte: reúne papéis e em cada um deles coloca cada uma das letras que constituem o poema Os Lusíadas, assim como cada vírgula, cada ponto, cada espaço... tudo. Pega todos esses papéis e entra num helicóptero. Quando estiveres bem lá no alto, lança todos esses papéis para o solo. Se o acaso existir, ele vai ordená-los todos de forma a construírem esse poema. Faz quantas tentativas quiseres. No dia em que conseguires esse feito, diz-me, e eu abandonarei a minha convicção da existência de Deus e passarei a admitir que o acaso existe e que é a causa do universo. E repara, esse poema é obra bem mais pequena e simples do que o universo. Quando conseguires, avisa-me.

Roger, sorrindo, diz:

— É uma imagem magnífica. Mas imagino que haja uma forma de tornar isso ainda mais concreto.

— Há. O matemático Fred Hoyle calculou que a probabilidade de as proteínas necessárias para a vida mais simples se formarem por acaso é de uma para dez elevado a quarenta mil. Para teres uma noção, existem aproximadamente dez elevado a oitenta átomos em todo o universo observável. Um número com quarenta mil zeros ultrapassa qualquer noção humana de possibilidade. Hoyle, que era ateu convicto, ficou tão perturbado com este cálculo que acabou por admitir que a vida não podia ser obra do acaso. As suas próprias palavras foram: A probabilidade de a vida ter surgido por acaso é comparável à probabilidade de um furacão atravessar um depósito de sucata e montar um Boeing 747. E repara — Hoyle não era religioso. Era um cientista que seguiu os números até onde eles o levaram.

— É impossível! — Diz Roger.

— Assim também é impossível que o universo seja obra do acaso.

Roger, percebendo que a sua convicção ateísta estava a ir por água abaixo, diz:

— Tudo bem, o nada não existe. O acaso não existe. Mas isso não prova que o universo seja mesmo obra de Deus.

Tom ficou entusiasmado com a questão do amigo e disse:

— O universo existe, certo? Então, o que quer que tenha criado o universo é o que eu chamo de Deus. Outras pessoas chamam de muitos outros nomes. Nomes não importam. O que importa é o ser. A causa das causas. A causa primária de todas as coisas.

Roger, pensativo, diz:

— Mas Tom, chamar-lhe Deus não é dar-lhe características que não podemos provar? Pode ser simplesmente uma força, uma energia, algo impessoal.

— É uma observação legítima, Roger. E repara numa coisa — a pergunta correta não é quem é Deus, porque quem já pressupõe uma figura pessoal e humana. A pergunta correta é o que é Deus. E o que a razão nos diz é que essa causa existe, que é inteligente — porque produziu leis e ordem

— que é eterna — porque se tivesse tido início precisaria de uma causa anterior — e que é única — porque se houvesse duas causas primárias, uma seria necessariamente superior à outra, e essa é que seria a verdadeira causa primária. Chama-lhe como quiseres. O que não podes negar é o ser.

Roger, levantando a mão, diz: — Espera, Tom. Antes de aceitar isso, há uma contradição que me incomoda. Tu dizes que essa causa criou o universo. Mas a ciência diz que nada se cria, tudo se transforma. Se nada se cria, como pôde essa causa criar o universo? Ou nada se cria, ou o universo foi criado. Não pode ser as duas coisas.

Tom sorri e diz: — A lei de que nada se cria nem se destrói é uma lei que opera dentro do universo, depois de ele existir. É uma lei do sistema. Mas a causa primária não está dentro do sistema — é ela que é a causa do sistema. Foi ela que estabeleceu essa própria lei. A criação do universo não é uma transformação de energia que já existia. É a origem da energia e das leis que a governam. A conservação aplica-se ao que está dentro do universo, não ao ato que lhe deu origem. Por isso não há contradição: dentro do universo, nada se cria; mas o próprio universo foi criado.

Roger acena lentamente: — A lei vale para o jogo, mas não para quem inventou o jogo.

Tom sorri: — Não poderias ter dito melhor.

— Tens razão, meu amigo! Deus existe. Não tenho mais argumentos que possam negar a sua existência. Pensas que Deus se importa connosco?

Tom abre um sorriso e diz: — Assim como tu e eu queremos o melhor para os nossos filhos, e somos imperfeitos, o que não quererá Deus para nós?

Roger, pensativo, diz: — Mas Tom, isso é um argumento emocional. Como podes provar pela razão que Deus se importa com as suas criaturas?

— Pela mesma razão que usámos até aqui. Já concluímos que a causa primária é inteligente e que produziu leis com uma precisão extraordinária — o ajuste fino do universo de que falámos. Ora, uma inteligência que calibra com tal precisão as condições para que a vida exista, não o faz por indiferença. A indiferença não constrói uma casa tão cuidada para um hóspede que despreza. Mas há uma resposta ainda mais sólida, Roger, e essa exige que conheçamos primeiro a própria natureza de Deus — os seus atributos. Quando o fizermos, verás que o cuidado de Deus pelas suas criaturas não é um desejo nem uma esperança, mas uma consequência necessária daquilo que Deus não pode deixar de ser. Fica essa conversa para o nosso próximo encontro.

Fim

Parte II

A Grande Escolha


Esta história é apresentada sob a forma de um suposto diálogo entre dois amigos — Tom e Roger — que têm visões completamente diferentes sobre a vida. Na primeira parte, abordámos a questão de Deus, a causa das causas e as provas científico-filosóficas da sua existência.

Após um silêncio momentâneo, Roger pergunta:

— Tom, é hoje que me vais falar sobre a alma e o seu destino após a morte?

— Antes de falarmos da questão da alma e do seu destino, temos que procurar conhecer um pouco que seja da natureza de Deus. Nós não sabemos ainda tudo o que ele é, mas já podemos fazer uma ideia do que ele não pode deixar de ser. Já sabemos da sua existência, agora precisamos de compreender os seus atributos.

— E quais são esses atributos? — Pergunta Roger cada vez mais curioso.

— Deus é a suprema e soberana inteligência. É eterno, imutável, imaterial, omnipotente, soberanamente justo e bom, infinitamente perfeito, único. Estes são os atributos que Deus não pode deixar de ter.

Roger olha para o seu amigo e diz:

— Explica isso melhor. Por que motivo Deus não pode deixar de ter esses atributos?

Tom, agradado com a pergunta de Roger, explica:

— Deus é a suprema e soberana inteligência porque abrange o infinito. Por isso, tem que ser infinita. Se a supuséssemos limitada num ponto qualquer, poderíamos conceber outro ser mais inteligente, capaz de compreender e fazer o que o primeiro não faria, e assim por diante, até ao infinito.

Roger faz sinal ao amigo para que continue.

— Deus é eterno porque não teve começo e não terá fim. Se tivesse tido princípio, houvera saído do nada. Ora, não sendo o nada coisa alguma, coisa nenhuma pode produzir. Ou, então, teria sido criado por outro ser anterior e, nesse caso, este ser é que seria Deus. Se lhe supuséssemos um começo ou um fim, poderíamos conceber uma entidade existente antes dele e capaz de lhe sobreviver, e assim por diante, até ao infinito.

Roger, lembrando-se de uma conversa anterior com o amigo, diz:

— Sim, chegámos a essa conclusão numa conversa anterior. Realmente não pode deixar de ser a suprema e soberana inteligência e, claro, também não pode deixar de ser eterno. Podes continuar?

— Deus é imutável porque se estivesse sujeito a mudanças, nenhuma estabilidade teriam as leis que regem o universo.

Roger, franzindo o sobrolho, diz:

— Imutável? Mas o universo está em constante mudança, evolução, expansão. Como pode a causa de tudo isso ser imutável?

— É uma distinção importante, Roger. O universo muda — mas as leis que o governam não mudam. A gravidade funcionava da mesma forma há mil milhões de anos e funcionará da mesma forma daqui a mil milhões de anos. A velocidade da luz é constante. As constantes matemáticas são eternas. Se a causa primária mudasse, as leis mudariam com ela — e o universo seria imprevisível, caótico, impossível de compreender pela ciência. O facto de a ciência ser possível — o facto de podermos descobrir leis e confiar nelas — é em si mesmo uma evidência da imutabilidade da causa que as sustenta.

Roger faz sinal ao amigo para que continue.

— Deus é imaterial porque a sua natureza difere de tudo a que chamamos matéria. De outro modo, não seria imutável, pois estaria sujeito às transformações da matéria.

Roger, pensativo, diz:

— Mas, Tom, se Deus é imaterial, como pode interagir com um universo material?

— Repara, Roger, Einstein demonstrou que matéria e energia são duas formas da mesma realidade — E=mc2. O vapor não é sólido como a pedra, mas move locomotivas e barcos. Mesmo dentro do universo existem realidades profundamente diferentes que interagem entre si. Campos invisíveis movem partículas. A gravidade atua à distância. A própria física moderna mostrou-nos que a realidade é muito mais profunda do que a antiga ideia de matéria sólida. Portanto, o simples facto de Deus ser de uma natureza diferente da matéria não significa que não possa agir sobre ela. Significa apenas que a nossa compreensão da realidade ainda é limitada.

Roger fica admirado com a ligação entre os atributos e diz:

— É incrível, Tom. Os atributos precisam de estar ligados entre si para que façam sentido. Continua meu amigo, continua.

— Deus é omnipotente porque se não possuísse o poder supremo, sempre se poderia conceber uma entidade mais poderosa, e assim por diante, até chegar-se ao ser cuja potencialidade nenhum outro ser ultrapassasse. Esse, então, é que seria Deus.

Roger acena ao amigo para que continue.

— Deus é soberanamente justo e bom porque a providencial sabedoria das leis divinas se revela nas mais pequeninas coisas, como nas maiores, não permitindo essa sabedoria que se duvide da sua justiça, nem da sua bondade. O facto de o ser ter infinita uma qualidade, exclui a possibilidade de uma qualidade contrária, porque esta a apoucaria ou anularia. Um ser infinitamente bom não poderia conter a mais insignificante parcela de malignidade. Deus, pois, não poderia ser simultaneamente bom e mau, porque, não possuindo qualquer dessas duas qualidades no grau supremo, não seria Deus; todas as coisas estariam sujeitas ao seu capricho e para nenhuma delas haveria estabilidade. Não poderia ele, por conseguinte, deixar de ser ou infinitamente bom ou infinitamente mau. Ora, como as suas obras dão testemunho da sua sabedoria, da sua bondade e da sua solicitude, concluir-se-á que, não podendo ser ao mesmo tempo bom e mau sem deixar de ser Deus, ele necessariamente tem de ser infinitamente bom. A soberana bondade implica a soberana justiça, porquanto, se ele procedesse injustamente ou com parcialidade numa só circunstância que fosse, ou com relação a uma só de suas criaturas, já não seria soberanamente justo e, em consequência, já não seria soberanamente bom.

Roger, franzindo o sobrolho, diz:

— Mas, Tom, se Deus é infinitamente bom, como explicas o sofrimento no mundo? As guerras, as doenças, a morte de inocentes. Como pode um Deus infinitamente bom permitir isso?

— É uma excelente pergunta que vamos ver mais tarde. Antes precisas de entender uma série de detalhes que ainda não compreendes.

Roger fica mais uma vez surpreendido com os argumentos do amigo e diz:

— Estou impressionado com os argumentos que utilizas sobre os atributos de Deus. Podes continuar.

— Deus é infinitamente perfeito porque é impossível conceber-se Deus sem o infinito das perfeições, sem o que não seria Deus, pois sempre se poderia conceber um ser que possuísse o que lhe faltasse. Para que nenhum ser possa ultrapassá-lo, faz-se mister que ele seja infinito em tudo. Sendo infinitos, os atributos de Deus não são suscetíveis de aumento nem de diminuição, caso contrário não seriam infinitos e Deus não seria perfeito. Se retirassem a qualquer dos seus atributos a mais mínima parcela, já não haveria Deus, pois poderia existir um ser mais perfeito.

Roger pede ao amigo que continue.

— Deus é único, porque a unicidade de Deus é consequência do facto de serem infinitas as suas perfeições. Não poderia existir outro Deus, salvo sob a condição de ser igualmente infinito em todas as coisas, visto que, se houvesse entre eles a mais ligeira diferença, um seria inferior ao outro, subordinado ao poder desse outro e, então, não seria Deus. Se houvesse entre ambos igualdade absoluta, isso equivaleria a existir, de toda a eternidade, um mesmo pensamento, uma mesma vontade, um mesmo poder. Confundidos assim, quanto à identidade, não haveria, em realidade, mais que um único Deus. Se cada um tivesse atribuições especiais, um não faria o que o outro fizesse; mas, então, não existiria igualdade perfeita entre eles, pois nenhum possuiria a autoridade soberana. Em resumo, Deus não pode ser Deus senão sob a condição de que nenhum outro o ultrapasse, porque o ser que o excedesse no que quer que fosse, ainda que apenas na espessura de um cabelo, é que seria o verdadeiro Deus. Para que tal não se dê, é indispensável que ele seja infinito em tudo. (1)(4)(5)

Roger fica maravilhado com a lógica irrefutável que o amigo lhe apresenta sobre os atributos de Deus e diz: — Tom, estou surpreendido com a tua exposição dos atributos de Deus. Compreendo-os a todos e vejo que uns não podem existir sem os outros. Contudo, qual é a relação entre a alma e o seu destino com os atributos de Deus?

Tom abre um sorriso e diz:

— Roger, eles são imprescindíveis para compreendermos a alma e o seu destino. Mas estamos ainda apenas no início e falta ligar muitos pontos.

— Caro Tom, o destino da alma após a morte é apenas uma questão de fé. Umas religiões dizem uma coisa, outras dizem outra. Algumas falam de céu, inferno, paraíso. Falam de almas, espíritos, anjos, demónios. Enfim, tudo isso não passa de uma questão de fé.

— Não Roger, isso não é uma questão de fé. As nossas conversas não têm um carácter religioso. Não pretendemos aqui defender a religião A, B ou C. As nossas conversas são sempre científico-filosóficas.

Roger, surpreendido, diz:

— Mas Tom, como podes falar da alma sem falar de religião? A alma é um conceito religioso.

— É verdade que as religiões falam da alma há milénios, Roger. Mas a alma não é propriedade exclusiva da religião. Platão explorava a natureza da alma como uma questão filosófica e racional, pela força da razão pura, independentemente de qualquer crença. Pitágoras, os estoicos, os neoplatónicos fizeram o mesmo. O mais interessante é que pensadores de épocas, culturas e tradições completamente diferentes chegaram às mesmas conclusões sobre a alma — não pela fé, mas pela razão. E mais recentemente, investigadores como o Dr. Alexander Moreira-Almeida, o Dr. Ian Stevenson e o Dr. Pim van Lommel têm estudado a alma e a sobrevivência da consciência com todo o rigor científico. A questão da alma pode ser abordada com rigor filosófico e científico, sem necessidade de invocar qualquer religião. É precisamente isso que faremos. (6)(7)(8)

Roger fica surpreendido com a resposta do amigo e diz animado:

— Muito bem, então falemos da alma e do seu destino. Será que a alma só existe enquanto existir o corpo?

— É uma excelente pergunta, mas antes de falarmos do destino da alma precisamos de saber o que ela é. A alma ou o espírito é o ser inteligente, e não depende do facto de estar ligada, ou não, a um corpo material.

Quando Tom ia para continuar a falar, Roger pergunta:

— Qual é a diferença entre alma e espírito?

— É a mesma coisa. Dizemos alma, quando esta está ligada a um corpo físico, e dizemos espírito, quando está desligado dele.

Roger faz sinal ao amigo que continue.

— A alma ou o espírito é o ser inteligente individualizado. É dotado de sentimentos, vontade. A alma teve início e não terá fim. É imortal. O espírito não precisa de estar ligado a um corpo material para existir, para ter inteligência, individualidade e sentimentos. Nós dois somos um espírito com um corpo físico, e não um corpo físico que tem uma alma ou espírito.

Roger, pensativo, diz:

— Mas Tom, a ciência diz-nos que a consciência é produto do cérebro. Que quando o cérebro morre, a consciência desaparece. Como podes afirmar que somos um espírito com um corpo e não o contrário?

— Roger, não é a ciência que diz que a consciência é produto do cérebro. É apenas a suposição de alguns cientistas, não de todos. Vamos esclarecer essa questão mais à frente, com argumentos científicos que te vão surpreender. Por agora, acompanha o raciocínio.

— Entendi. A diferença entre a alma e Deus é que a alma teve um início e não terá fim. Já Deus não teve início nem terá fim. Mas a inteligência não é uma característica do cérebro?

— Não. A inteligência é característica do espírito. O cérebro é apenas uma máquina que recebe as instruções do espírito, assim como a TV mostra as imagens que lhe são transmitidas via cabo ou via antena. A fonte da transmissão que é mostrada na TV não tem origem na TV. Se quiseres, numa linguagem informática, o software é o espírito e o hardware é o cérebro. É claro que a alma comunica com o corpo e o corpo influência a alma.

Roger, curioso, diz:

— Podes dar-me um exemplo dessa influência mútua entre o corpo e a alma?

— Com prazer. Quando estás doente, o teu estado físico afeta o teu humor, os teus pensamentos, a tua disposição — o corpo influencia a alma. Mas quando estás ansioso ou triste, o teu corpo responde — o coração acelera, o estômago contrai, perdes o apetite — a alma influencia o corpo. São duas realidades distintas mas profundamente ligadas. O software e o hardware comunicam constantemente.

— E por que motivo a alma é imortal?

— Pela mesma razão que usámos para compreender os atributos de Deus,

Roger. Se Deus é infinitamente justo e bom, e criou almas com sentimentos, memórias, relações de amor e amizade, seria profundamente injusto e contraditório com a sua própria natureza destruí-las após uma existência tão breve. Perder-se-iam todas as relações de familiaridade, de amor, de amizade. Perder-se-iam as boas ações praticadas em vida. Uma inteligência infinita que cria algo tão complexo e tão rico como uma alma individual, para a aniquilar após algumas décadas, estaria a contradizer os seus próprios atributos de justiça, bondade e perfeição. A imortalidade da alma não é um capricho de Deus — é uma consequência lógica e inevitável da sua própria natureza.

— A alma foi criada para aquele corpo ou já existia antes dele?

— Excelente pergunta, porém muito fácil de responder. Se a alma fosse criada para determinado corpo, como explicar o facto de umas crianças serem boas e outras más, rebeldes, dentro da mesma família, inseridas no mesmo meio, tendo ambas uma educação semelhante? São almas muito diferentes. De onde viria essa diferença? De onde viria essa bondade, docilidade numas e noutras a maldade, a rebeldia, se elas não existissem antes dos seus corpos materiais? Será que Deus criou umas almas melhores do que outras? Óbvio que não. Essa ideia viola o atributo de que Deus é infinitamente justo e bom. Sendo Deus a suprema justiça e bondade, não pode criar umas almas melhores do que outras. Deus tem que criá-las a todas no mesmo estado, no mesmo nível de desenvolvimento.

Roger interrompe Tom e diz:

— Entendo agora o motivo por que não podemos compreender a alma e o seu destino sem compreender os atributos de Deus. Continua Tom.

— Sem dúvida, Roger. Se não compreendermos os atributos de Deus, não podemos compreender a alma e o seu destino. Ainda falando das crianças, imagina duas crianças: uma nasce numa família boa, que lhe dá bons exemplos. Já a outra nasce numa família má, perversa, que lhe dá os piores exemplos.

Mais uma vez, a ideia de que as almas são criadas para o corpo viola o atributo da soberana justiça e bondade de Deus, porque, enquanto uma alma teria mais facilidade de seguir o bom caminho, a outra mais facilmente seria arrastada para a maldade e a perversidade (é uma tendência, não é um arrastamento irresistível, visto que famílias boas podem ter crianças más e famílias más podem ter crianças boas), por que razão Deus colocaria uma alma numa família boa e outra numa família má? O pensamento de que a alma é criada para o corpo, que não existia antes deste, viola o atributo da suprema justiça e bondade de Deus.

Roger faz sinal ao amigo que continue.

— Se a alma fosse criada para o corpo e não existisse antes dele, qual seria o destino dessa alma quando uma criança morre em tenra idade ou pouco tempo depois de nascer? Essa alma não teve tempo para fazer o mal nem o bem. Então, para onde iria ela após a morte do corpo físico? Para um inferno qualquer? Não, porque nada fez que justificasse tal castigo. Para qualquer tipo de céu ou paraíso? Mas que bem ela fez que justifique tal prémio? Para qualquer limbo? Não seria isso um castigo ou um prémio? Essa ideia viola o atributo da suprema justiça e bondade de Deus.

Roger está abismado com a argumentação do amigo e diz:

— Sim, sim, não faz sentido nenhum que a alma seja criada para o corpo. Sim, Deus só pode ter criado as almas todas iguais.

— Sem dúvida, meu amigo. Deus criou todas as almas iguais, como uma folha em branco. Pouco a pouco, elas vão escrevendo a sua história, marcando-a com os traços da sua vontade.

— Então de onde vêm as almas? Quando foram criadas?

— Vamos ver isso depois. Antes disso, precisamos de entender para onde vai a alma após a morte. Irá para um céu ou paraíso? Para um inferno? Para um limbo? Irá para o todo universal, como defendem os panteístas?

— Não sei, diz-me tu.

— Se a alma fosse para um céu ou paraíso, ficaria eternamente numa beatitude inútil? Não te parece isso um género diferente de castigo?

— Realmente, uma contemplação eterna seria um suplício. Continua.

— Se fosse para um inferno, ficaria em sofrimento eternamente, sem qualquer hipótese de arrependimento? Essa ideia contradiz pelo menos dois atributos de Deus: o da suprema inteligência, porque, se apenas uma das almas que ele criou fosse para um inferno, seria a constatação do seu fracasso para com aquela alma; e o da suprema justiça e bondade, porque Deus precisaria de ser muito mau para deixar um de seus filhos num sofrimento eterno sem remissão. Bastaria, para esse espírito, uma existência mal direcionada para Deus lhe ditar um suplício eterno, num ato de vingança contra a sua criatura. Isso não é justo, não é bom e não é inteligente.

— De facto, a ideia do inferno transforma Deus num ser terrível e castigador. Continua meu amigo.

— Se fosse para o todo universal, perderia a sua individualidade para toda a eternidade. Vimos que a alma é um ser individual, teve um início e não terá fim, logo não pode perder a sua individualidade. O pensamento panteísta ainda tem outro problema: essa ideia, do todo universal ser constituído por Deus e pelas suas criaturas, contraria os seus atributos. Se assim fosse, então Deus já não seria a suprema inteligência, visto que há seres muito pouco inteligentes que fariam parte do todo universal. O atributo da imutabilidade de Deus também ficaria anulado ou apoucado pelo mesmo princípio, assim como o atributo da omnipotência de Deus. O atributo da soberana justiça e bondade também ficaria anulado ou diminuído, porque umas almas são mais bondosas do que outras. O atributo da perfeição infinita de Deus também ficaria anulado, visto que as almas são umas melhores do que outras.

Roger, então, diz:

— Sim, compreende-se que a alma tenha tido um início e que não terá um fim. Que será eterna. Também se compreende a impossibilidade do destino da alma ser um qualquer céu ou paraíso. Também se compreende a impossibilidade do destino da alma ser um qualquer inferno eterno. Compreende-se também a impossibilidade das ideias panteístas. Também é lógico que o destino da alma não seja um qualquer limbo. Sim, caro Tom. Tudo isso é profundamente lógico. Não há como sustentar essas ideias absurdas e irracionais. Mas, afinal, qual será o destino da alma?

Tom abre um sorriso e diz:

— Caro Roger, a alma já viveu antes, animando outros corpos, e viverá ainda depois, animando novos corpos. Num suceder de existências materiais. O nome disso é REENCARNAÇÃO.

Roger, surpreendido, diz:

— Reencarnação? Mas isso não é uma ideia religiosa, oriental?

— É o que muitos pensam, Roger. Mas a reencarnação não é propriedade de nenhuma religião. No Egipto antigo, há mais de três mil anos, a ideia da sobrevivência da alma e do seu retorno era central na sua visão do mundo. Na Índia, filósofos exploravam a reencarnação muito antes do surgimento das grandes religiões organizadas. Platão defendia-a na Grécia antiga. Pitágoras também. Os druidas celtas também. O filósofo Giordano Bruno foi queimado pela Inquisição em parte por defender ideias semelhantes. Culturas que nunca comunicaram entre si chegaram à mesma conclusão — o que é em si mesmo significativo. E mais recentemente, como veremos, cientistas de vários continentes têm investigado este fenómeno com rigor académico. A reencarnação não é uma questão de fé — é a conclusão lógica de tudo o que já discutimos. É a única resposta que não viola nenhum dos atributos de Deus que estabelecemos.

— Então nós já vivemos antes? E viveremos quando estes corpos morrerem?

— Sim, isso mesmo. A reencarnação é a pedagogia de Deus. É a grande escolha de Deus.

— Espera aí, isso é incrível, e explica todas essas coisas que tínhamos vindo a falar. Sim, é claro. Agora consigo ligar todos os pontos. A criança boa foi a alma que tinha progredido já em outras existências, e a criança má, rebelde, é a alma que ainda não conseguiu melhorar-se. E aquele exemplo que falaste sobre a criança que nasce numa família boa e outra numa família má, penso que a alma má que nasce numa família boa pode ser uma alma que está a fazer todos os esforços por se tornar boa. Já a criança boa que nasce numa família má tem a tarefa de melhorar essa família com exemplos bons. Também compreendo agora aquele caso das crianças que morrem em tenra idade ou pouco tempo depois de nascer. Com as múltiplas existências da alma, esta passa por todo o tipo de experiências para se tornar melhor. Ok, ok. Mas diz-me, após a morte deste corpo, a alma tomará outro corpo imediatamente?

— Não, Roger. A alma fica no universo, ou podes chamar-lhe realidade espiritual. Fora da matéria como a conhecemos aqui.

Roger franze o sobrolho e diz:

— Se a alma fica na realidade espiritual entre as vidas, porque não fica lá para sempre? E não estou a falar de ficar parada — isso eu sei que seria um castigo. Estou a falar de ficar lá ativa: a evoluir, a aprender, a ajudar outros espíritos. Porquê voltar a um corpo através da reencarnação ?

Tom sorri, satisfeito com a pergunta e diz:

— Há aprendizagens que só a matéria proporciona. No corpo a alma tem possibilidade de experimentar tentações que na realidade espiritual não tem. Ao reencarnar, a alma tem a dádiva do esquecimento parcial do passado que é o véu que lhe permite começar de novo, enfrentar cada vida sem o peso de todas as anteriores, viver provas e expiações que de outro modo seriam impossíveis na realidade espiritual. A alma vive cada existência como uma experiência inteiramente nova, com desafios que nunca enfrentaria se permanecesse para sempre na realidade espiritual, com a memória intacta. É a variedade sem fim dessas experiências, sempre recomeçadas, que faz a alma evoluir.

Roger fica em silêncio durante um longo momento e depois diz: — Já percebi, Tom. A alma evolui dos dois lados — no mundo espiritual e na vida corporal. Mas há lições que só o corpo ensina, provas que só a matéria oferece, recomeços que só o esquecimento torna possíveis. Por isso a alma não fica eternamente de um lado só: precisa dos dois para crescer por inteiro.

Tom acena lentamente: — Agora fechámos a última porta, Roger. Não há outra hipótese de pé.

— E a alma só se liga a corpos humanos ou pode ligar-se a corpos de animais?

— Roger, qual será a utilidade evolutiva de numa próxima existência nos ligarmos a um corpo de um animal? Não, as múltiplas existências servem para que a alma se melhore. A alma necessita de equipamentos (corpos) que possam ajudá-la a tornar-se melhor. A alma pode permanecer estacionária por algum tempo, mas nunca retrograda na sua evolução. E além da questão da utilidade, há a questão da lógica: um corpo de animal não possui os instrumentos de que uma alma humana já dispõe — a razão, a linguagem, o sentido moral, a consciência de si. Colocar uma alma humana num corpo de animal seria privá-la de tudo aquilo que já conquistou, seria fazê-la recuar. E o recuo é precisamente o que a lei da evolução não permite. Seria como pedir a um adulto que desaprendesse a falar e a pensar. Por isso, uma vez alcançado o grau humano, a alma encarna sempre em corpos à altura do que já é, ou que a façam crescer ainda mais — nunca abaixo disso.

— Tom, eu sei que a nossa conversa não tem um carácter religioso, mas sabes dizer-me se na Bíblia ou nos Evangelhos existe alguma passagem referente às existências sucessivas ou reencarnação?

— Podemos falar sobre a Bíblia ou os Evangelhos sem um carácter religioso. Por exemplo, os Evangelhos são como que biografias de Jesus de Nazaré. Também podemos falar de Jesus de Nazaré sem um carácter religioso. Jesus foi uma alma extraordinária que encarnou na Terra para ajudar a humanidade a progredir. Jesus é muito mais um filósofo, um terapeuta, do que um religioso. As religiões é que tentaram, cada uma à sua maneira, tomar Deus e Jesus para si. Mas Jesus é uma alma muito acima de qualquer religião existente na Terra. Mas, respondendo à tua pergunta, sim, existem. Vou falar-te de algumas, das mais claras.

Roger agradece a disposição do amigo e faz-lhe sinal para que o faça.

— Ora, entre os fariseus, havia um homem chamado Nicodemos, senador dos judeus, que veio à noite ter com Jesus e lhe disse: Mestre, sabemos que vieste da parte de Deus para nos instruir, porquanto ninguém poderia fazer os milagres que fazes se Deus não estivesse contigo. Jesus lhe respondeu: Em verdade, em verdade, digo-te: Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo. Disse-lhe Nicodemos: Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez? (2)

— Vês aí a ideia transmitida por Jesus das existências sucessivas?

Roger, pensativo, diz:

— Mas Tom, muitos católicos e muitos protestantes interpretam o nascer de novo como uma conversão espiritual, não como uma reencarnação física. Como respondes a isso?

— É uma interpretação possível, Roger. Mas repara na resposta de Nicodemos — ele pergunta literalmente se um homem pode voltar a entrar no ventre da mãe para nascer segunda vez. Se Jesus estivesse a falar apenas de conversão espiritual, Nicodemos não teria feito essa pergunta. A resposta de Nicodemos mostra que ele entendeu Jesus como estando a falar de um nascimento físico. E Jesus não o corrigiu. Se a interpretação de Nicodemos estivesse errada, Jesus tê-lo-ia corrigido imediatamente — como fez em tantas outras ocasiões.

Roger faz sinal ao amigo que continue.

— Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso pai, que está nos céus, dará bens aos que lhos pedirem? (Mateus) — Nestas palavras de Mateus está claramente demonstrada a impossibilidade das penas eternas. Se nós, pais da Terra, que somos imperfeitos, damos boas coisas aos nossos filhos, imagine-se o que fará Deus com todos os seus filhos, sem exceção. Faria sentido que Deus desse sofrimento eterno a alguma de suas criaturas? Se pais, que são imperfeitos, estão sempre dispostos a perdoar a seus filhos, imagine-se o que não fará a infinita bondade por seus filhos para que eles sigam o caminho do bem. (2)

Roger faz sinal para que Tom continue.

— Eu juro por mim mesmo que não quero a morte do ímpio, mas que o ímpio se converta, que abandone o mau caminho e que viva. (Ezequiel, cap. XXXIII, v. 11) — Essa passagem da Bíblia não é clara, mostrando-nos a impossibilidade de qualquer inferno eterno?

— Sem dúvida, Tom, a ideia de um castigo eterno é totalmente contrária à suprema justiça e bondade de Deus. Se as almas reencarnam, elas têm sempre a possibilidade de se melhorar. Há mais passagens?

— Sim, há. Há uma passagem nos Evangelhos que mostra claramente que João Batista é a reencarnação de Elias, um dos profetas do passado.

Roger, a ideia dos castigos eternos foi útil no tempo de Moisés, quando era necessário acreditar num Deus castigador e terrível para que aquele povo o fosse respeitando por medo e não por amor. Os homens desse tempo não ficariam impressionados com as penas morais, e até chegariam a considerar Deus um ser fraco que não se fazia respeitar. Jesus, porém, já veio mais tarde, proclamar um Deus clemente, misericordioso.

Roger, curioso, diz:

— Qual é essa passagem sobre João Batista e Elias?

— Em Mateus, capítulo 11, versículo 14, Jesus diz claramente aos seus discípulos, a propósito de João Batista: E, se o quereis aceitar, ele é o Elias que devia vir. E em Mateus 17, versículo 12, Jesus diz ainda: Elias já veio, e não o reconheceram. Os próprios discípulos compreenderam que Jesus estava a falar de João Batista. É uma das referências mais diretas à reencarnação nos Evangelhos — e vem das próprias palavras de Jesus. (2)

Roger faz sinal para que o amigo continue.

— Jesus, repetidas vezes, nos ensinou a perdoar aos nossos inimigos. Deus poderia ser impiedoso condenando apenas uma de suas criaturas ao suplício eterno? Claro que não.

— Pois, porque o perdão seria bom para as almas. Seriam as almas melhores do que Deus? Não. Deus, vingando-se por um castigo infinito, seria logo infinitamente vingativo e, então, já não poderia ser infinitamente bom. Se Deus não perdoasse ao arrependido, seria impiedoso e, sendo impiedoso, já não poderia ser bom. Se Deus é todo misericordioso para a alma arrependida antes da morte, por que deixará de o ser para quem se arrepende depois dela? Porquê a eficácia do arrependimento só durante a vida, um breve instante, e não na eternidade, que não tem fim? Circunscritas a um dado tempo, a bondade e a misericórdia divinas teriam limites, e Deus não seria infinitamente bom. Se a pena fosse irrevogável, inútil seria o arrependimento, e o culpado, nada tendo a esperar de sua correção, persistiria no mal, de modo que Deus não só o condenaria a sofrer perpetuamente, mas ainda a permanecer no mal por toda a eternidade. Nisso não há bondade nem justiça nem inteligência. (3)

— Excelentes observações, Roger.

— Tom, por que motivo existe esse, digamos, entre existências, essa realidade espiritual desprovida de matéria como a conhecemos?

— Porque nós viemos de lá para cá. A nossa verdadeira casa não é aqui. A nossa verdadeira casa é lá. Por outro lado, o espírito defronta-se, na vida espiritual, com as consequências de todas as imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corpórea.

Roger, pensativo, diz:

— Mas, Tom, como podes afirmar que a nossa verdadeira casa é lá e não aqui?

— Repara, Roger. Nós passamos aqui algumas décadas — um breve instante face à eternidade da alma. A alma existia antes de encarnar e continuará a existir depois. A vida corpórea é uma passagem, não um destino. É como um estudante que vai estudar para uma cidade longe de casa — a cidade onde estuda é importante, é onde cresce e aprende, mas a sua verdadeira casa é outra. E quando termina os seus estudos, regressa. A realidade espiritual não é um lugar de espera vazio — é onde a alma reflete sobre o que viveu, enfrenta as consequências das suas imperfeições e prepara a existência seguinte.

— O espírito reencarna quantas vezes? Ou também é eterno o processo de reencarnação, tal como a alma?

— O espírito encarna tantas vezes quantas forem necessárias. No momento que já não for mais necessário que ele encarne, ele vive apenas e só como espírito.

— Então a encarnação apenas se dá enquanto o espírito for imperfeito, é isso?

— Sim, isso mesmo. Quando ele não precisar de encarnar mais é porque já atingiu o estado de pureza. Já evoluiu, tanto intelectualmente como moralmente, ao ponto de ser um espírito puro. A completa felicidade prende-se à perfeição, isto é, à purificação completa do espírito. Não há uma única imperfeição da alma que não implique inevitáveis consequências, como não há uma só qualidade que não resulte numa fruição. Em virtude da lei do progresso, que dá a toda a alma a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta, como de despojar-se do que tem de mau, conforme o esforço e vontade próprios, a evolução é aberta a todas as criaturas. Dependendo o sofrimento da imperfeição, como a fruição depende da perfeição, a alma traz consigo o próprio castigo ou prémio, onde quer que se encontre. O bem e o mal que fazemos decorrem do estágio evolutivo que alcançámos. Não fazer o bem quando podemos é, portanto, o resultado de uma imperfeição. Se toda a imperfeição é fonte de sofrimento, o espírito sofrerá, não somente pelo mal que fez, como pelo bem que deixou de fazer na sua vida. O espírito sofre pelo mal que fez, de maneira que, sendo a sua atenção constantemente dirigida para as consequências desse mal, melhor compreende os seus inconvenientes e trata de corrigir-se. Sendo infinita a justiça de Deus, o bem e o mal são rigorosamente considerados, não havendo uma só ação, um só pensamento bom ou mau que não tenha consequências. Não há um único movimento bom da alma que se perca, mesmo nos mais perversos, constituindo tais ações um começo de progresso. Toda a falta cometida, todo o mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se o não for em uma existência, sê-lo-á na seguinte ou seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si. Aquele que se quita numa existência, não terá necessidade de pagar segunda vez. (3)

— Daí a suprema justiça e bondade de Deus. A justiça não deve anular a bondade, nem a bondade deve anular a justiça. Justiça e bondade devem andar de mãos dadas para que a justiça não se transforme em impiedade ou vingança, e a bondade sem a justiça não se transforme em injustiça.

— Sem dúvida. Deus concilia a justiça e a bondade na perfeição.

Roger faz sinal para que Tom continue.

— O espírito sofre, quer no mundo corporal, quer no espiritual, a consequência das suas imperfeições. As misérias, as vicissitudes padecidas na vida corpórea, são oriundas das nossas imperfeições, são expiações de faltas cometidas na presente ou em precedentes existências. Pela natureza dos sofrimentos e vicissitudes da vida corpórea, pode julgar-se a natureza das faltas cometidas em anterior existência, e das imperfeições que as originaram. A expiação varia segundo a natureza e gravidade da falta, podendo, portanto, a mesma falta determinar expiações diversas, conforme as circunstâncias, atenuantes ou agravantes, em que for cometida. Não há regra absoluta nem uniforme quanto à natureza e duração da expiação. A sua duração depende da melhoria do espírito culpado. Se existisse uma condenação por tempo predeterminado teria o duplo inconveniente de continuar o martírio do espírito renegado, ou de libertá-lo do sofrimento quando ainda permanecesse no mal. Ora, Deus, que é justo, só pune o mal enquanto existe, e deixa de o punir quando já não existe. Por outro lado, o mal moral, sendo por si mesmo causa de sofrimento, fará este durar enquanto subsistir aquele, ou diminuirá de intensidade à medida que ele decresça. (3)

Roger, de repente, diz:

— Tom, lembras-te que anteriormente te perguntei como pode um Deus infinitamente bom permitir o sofrimento no mundo? Disseste que resolverias isso mais tarde. Acho que agora já consigo responder eu mesmo a essa questão.

— Diz-me, Roger.

— O sofrimento não é um castigo arbitrário de Deus. É a consequência natural das imperfeições das almas e do uso que fazem do seu livre-arbítrio. Deus deu às suas criaturas a liberdade de escolher — e com essa liberdade vem a responsabilidade pelas consequências das suas escolhas. O mal não vem de Deus — vem da imperfeição dos espíritos que ainda estão a evoluir. E as leis morais que Deus criou funcionam como bússola — quando as violamos, sofremos as consequências, não como vingança, mas como aprendizagem. Como quando alguém come em excesso e fica com dor de barriga — não é um castigo, é uma consequência natural que ensina.

— Não podia ter dito melhor, Roger. O sofrimento, visto através do prisma de uma única existência, parece injusto. Visto através do prisma da eternidade da alma e da reencarnação, revela-se como parte de um processo de evolução e aperfeiçoamento. A justiça de Deus não é a justiça humana — é infinitamente mais sábia e mais abrangente.

— Como se deve entender o castigo de Deus?

— Como um ato de bondade, porque enquanto o espírito persistir no mal estará longe da felicidade. E Deus criou os espíritos para a suprema felicidade. O castigo de Deus é um ato de educação e não de vingança.

Roger pede ao amigo que continue.

— Uma condição inerente à inferioridade dos espíritos é desconhecerem o termo da provação, acreditando-a eterna, como eterno lhes parece deva ser um tal castigo. O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação. Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências. O arrependimento pode dar-se durante a vida terrena ou na espiritualidade, em qualquer tempo; se for tarde, porém, o culpado sofre por mais tempo. A expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais que lhe são consequentes, seja na vida atual, seja na vida espiritual após a morte, ou ainda em nova existência corporal. Nem todas as faltas acarretam prejuízo direto e efetivo; em tais casos, a reparação opera-se, fazendo-se o que se deveria ter feito e foi descurado; cumprindo os deveres desprezados, as missões não preenchidas. A responsabilidade das faltas é inteiramente pessoal, ninguém sofre por erros alheios, salvo se a eles deu origem, quer provocando-os pelo exemplo, quer não os impedindo quando poderia fazê-lo. Certo, a misericórdia de Deus é infinita, mas não é cega. O culpado que ela atinge não fica livre e, enquanto existir a causa, sofre a consequência dos seus erros. (3)

— É incrível a lógica, a justiça e a bondade de Deus. Uma pergunta: Será que nós dois fomos também amigos em existências anteriores?

— É possível. Mas também poderíamos ter tido uma relação de pai e filho, de irmãos, ou qualquer outro grau de parentesco. Todas as boas relações nesta vida podem já ter uma antiguidade maior do que se supõe. A reencarnação fortalece os laços de família, ao passo que a unicidade das existências os rompe.

— E como explicar certas relações familiares tumultuadas por relações de ódios, ressentimentos, animosidades?

— Certos espíritos, que já eram inimigos em existências anteriores, reúnem-se numa família para diluir esses sentimentos antagónicos. É uma tentativa de aproximação entre esses espíritos, que nem sempre conseguem esse intento.

— Pode ocorrer que dois espíritos que não se conhecem possam encarnar numa mesma família?

— Sim, pode, são os indiferentes. Nem amigos, nem inimigos. Mas, normalmente, no espaço os Espíritos formam grupos ou famílias entrelaçados pela afeição, pela simpatia e pela semelhança das inclinações. Ditosos por se encontrarem juntos, esses Espíritos buscam-se uns aos outros. A encarnação apenas os separa momentaneamente, porque, ao regressarem à vida espiritual, reúnem-se novamente, como tratando-se de amigos que voltam de uma viagem. Muitas vezes, até, uns seguem a outros na encarnação, vindo aqui reunir-se numa mesma família, ou num mesmo círculo, a fim de trabalharem juntos pelo seu mútuo adiantamento. Se uns encarnam e outros não, nem por isso deixam de estar unidos pelo pensamento. Os que se conservam livres velam pelos que se acham em cativeiro. Os mais adiantados esforçam-se por ajudar os retardatários a progredir. Após cada existência, todos têm avançado um passo na senda do aperfeiçoamento. (2)

— Uma vez que já tivemos muitas existências, a nossa parentela vai além da que faz parte da nossa existência atual?

— Não pode ser de outra maneira. A sucessão das existências corpóreas estabelece entre os espíritos ligações que remontam a existências anteriores. É por isso que, muitas vezes, a simpatia ou antipatia que existe entre duas ou mais pessoas nos parece estranha.

— O espírito que animou o corpo de um homem pode animar o de uma mulher, e vice-versa?

— Evidentemente. O espírito tem que passar por todo o tipo de experiências que o torne melhor. Se o espírito só animasse corpos de homens só saberia o que os homens sabem, e vice-versa.

Roger, pensativo, diz:

— Isso tem implicações enormes, Tom. Significa que qualquer homem que hoje menospreze as mulheres pode ter sido mulher em existências anteriores. E qualquer preconceito de género perde completamente o sentido.

— Exatamente, Roger. E o mesmo se aplica ao racismo, à xenofobia, às diferenças de classe social. A ciência já confirmou que existe apenas uma espécie humana — o que existe são diferentes etnias. Se o espírito pode encarnar em corpos de diferentes etnias, géneros, nacionalidades e classes sociais, então todos esses preconceitos revelam apenas a ignorância de quem os tem. No fundo, quando olhamos para outro ser humano com desprezo, podemos estar a olhar para o que fomos ou para o que seremos.

— O que são os anjos?

— Os anjos são espíritos mais evoluídos. Não poderia ser de outra maneira. Se Deus criasse os anjos diferente dos espíritos, estaria a ser injusto, porque os espíritos só progrediriam através do próprio esforço, enquanto os anjos nada teriam a sofrer. Essa ideia anula o princípio da suprema justiça e bondade de Deus.

— Sim, faz todo o sentido que assim seja. E os demónios, os diabos, o que são?

— Não existem seres eternamente voltados ao mal, são apenas uma figura que representa a maldade. Se os espíritos se aperfeiçoam continuamente, não sobra espaço para a existência dos demónios, dos diabos ou qualquer outro nome que se lhe queira dar.

— Sim, a reencarnação torna todos os espíritos bons.

— Sim, não há como fugir à evolução. Mais cedo ou mais tarde, os espíritos tornam-se puros.

— Que investigações científicas são feitas sobre o espírito e o seu destino após a morte do corpo físico?

— São muitas e de vários tipos, mais recentes ou mais antigas, em todos os continentes. Existem investigações feitas sobre as experiências de quase morte, as das visões no leito da morte, as experiências fora do corpo, as das crianças que se recordam de existências passadas, as da transcomunicação instrumental, as da regressão de memória até existências anteriores, as da mediunidade e outras. São investigações realizadas por cientistas de várias áreas.

Roger, curioso, diz:

— Podes dar-me alguns exemplos concretos desses investigadores e das suas descobertas?

— Com prazer. O Dr. Ian Stevenson, da Universidade de Virgínia, dedicou quarenta anos a estudar crianças com memórias de vidas anteriores, documentando mais de três mil casos em todos os continentes. Casos em que crianças descreviam com precisão locais, pessoas e eventos de vidas anteriores que nunca poderiam ter conhecido (7). O cardiologista holandês Dr. Pim van Lommel publicou na revista científica The Lancet um estudo rigoroso sobre experiências de quase morte em doentes em paragem cardíaca, sem atividade cerebral mensurável, que relataram experiências conscientes detalhadas e verificáveis (8). E o Dr. Alexander Moreira-Almeida, psiquiatra, publicou pela Springer Nature — uma das maiores editoras científicas do mundo — uma investigação abrangente sobre a sobrevivência da consciência após a morte. (6)

Roger, ainda mais curioso, diz:

— Tom, os nomes e as áreas de investigação são convincentes. Mas tens casos concretos? Casos específicos que te impressionaram?

— Tens toda a razão em pedir isso, Roger. Os casos são a parte mais difícil de ignorar. Vou dar-te um caso representativo de cada tipo de investigação.

Crianças com memórias de vidas anteriores

O caso de Shanti Devi, investigado na Índia, nos anos trinta do século passado e posteriormente documentado por Ian Stevenson. Esta criança, desde os quatro anos de idade, descrevia com detalhe a sua vida anterior como Lugdi Devi, numa cidade chamada Mathura, a centenas de quilómetros de onde vivia. Descrevia o marido, os filhos, a casa, os hábitos, detalhes da sua morte durante um parto. Um comité de investigação foi criado e levou a criança a Mathura pela primeira vez. Ela reconheceu a cidade, encontrou o caminho até à casa sozinha, identificou o marido anterior entre uma multidão, e referiu detalhes que só alguém que tivesse vivido ali poderia conhecer. Tudo foi verificado e documentado. (7)

O caso de James Leininger, investigado por Jim Tucker da Universidade de Virgínia. James era um menino americano que, aos dois anos de idade, começou a ter pesadelos recorrentes sobre um avião a cair em chamas. Descrevia com detalhe ser um piloto da Segunda Guerra Mundial chamado James Huston Jr., identificava o nome do porta-aviões onde servia, o nome de companheiros de esquadrão e o modelo do avião. Os pais, inicialmente céticos, verificaram que todas as informações correspondiam a um piloto real que morrera em combate no Pacífico em 1945. Tucker publicou este e outros casos no livro Life Before Life. (7)

Experiências de quase morte

O caso de Pamela Reynolds, documentado pelo cardiologista Michael Sabom, no livro Light and Death. Pamela foi submetida a uma cirurgia cerebral em que o seu cérebro foi completamente drenado de sangue e arrefecido a uma temperatura que tornava impossível qualquer atividade neurológica — o eletroencefalograma estava completamente plano. Era clinicamente morta. Quando foi reanimada, descreveu com precisão os instrumentos cirúrgicos utilizados, as conversas da equipa médica e os detalhes do procedimento. A equipa cirúrgica confirmou a exatidão das suas descrições. Este caso é considerado um dos mais rigorosamente documentados desta área. (9)

Do estudo de Pim van Lommel, no The Lancet: um homem deu entrada em paragem cardíaca, inconsciente. Durante a reanimação, uma enfermeira removeu a sua dentadura postiça e colocou-a num carrinho de materiais. Quando o paciente recuperou a consciência, dias depois, reconheceu essa enfermeira, disse-lhe onde estavam os seus dentes e descreveu o carrinho com precisão — bem como detalhes da sala de reanimação e dos procedimentos que ocorreram enquanto estava clinicamente morto, sem atividade cerebral. (8)

Visões no leito da morte

O caso documentado pelo médico Sir William Barrett no livro Death-Bed Visions. Uma mulher chamada Doris, em fase terminal, começou a descrever visões do seu pai falecido que vinha buscá-la. O extraordinário é que Doris descreveu também a presença da sua irmã — mas a família tinha deliberadamente ocultado de Doris que a irmã havia morrido dias antes, para não a perturbar. Doris não poderia ter sabido da morte da irmã por meios normais. Barrett documentou dezenas de casos semelhantes em que os moribundos descreviam a presença de pessoas que não sabiam ter morrido, eliminando a hipótese de alucinação alimentada por expectativa. (10)

Experiências fora do corpo

O caso investigado pela psicóloga Kimberly Clark Sharp. Uma paciente chamada Maria sofreu uma paragem cardíaca num hospital de Seattle.

Após ser reanimada, relatou que durante a paragem havia saído do seu corpo e visto, num parapeito de uma janela do terceiro andar, um ténis de desporto de cor azul com um pormenor específico: o cordão estava por baixo do calcanhar. Clark Sharp verificou pessoalmente e encontrou exatamente o ténis descrito, no local indicado, com o cordão por baixo do calcanhar — um detalhe invisível de qualquer janela do hospital, que Maria jamais poderia ter observado pelos meios normais. (11)

Regressão de memória a existências anteriores

O caso documentado pelo psiquiatra Brian Weiss no livro Many Lives, Many Masters. Uma paciente chamada Catherine, tratada por fobias e ansiedade crónica, foi submetida a hipnose terapêutica. Inesperadamente, começou a descrever com detalhe vidas em épocas históricas diferentes. O que tornou o caso cientificamente notável foi que Catherine transmitiu informações específicas sobre a família do próprio Weiss — incluindo o nome do seu filho falecido e detalhes da morte desse filho — que eram desconhecidas do público e que Weiss verificou serem exactas. Weiss, psiquiatra académico cético, publicou o caso depois de anos de hesitação, consciente do custo que teria para a sua reputação. (12)

Mediunidade

O caso de Leonora Piper, investigado por William James, professor de filosofia e psicologia em Harvard e fundador da psicologia americana. James era profundamente cético quando começou a investigar Piper, uma médium que transmitia mensagens de pessoas falecidas. Depois de anos de investigação rigorosa — incluindo vigilância privada para verificar que ela não recolhia informações antecipadamente, e sessões com participantes anónimos — James concluiu que Piper transmitia informações impossíveis de obter por meios normais. O seu relatório publicado nas actas da Society for Psychical Research é considerado um dos documentos mais rigorosos desta área. James escreveu: encontrei a minha ovelha negra — uma única ovelha negra é suficiente para provar que nem todas as ovelhas são brancas. (13)

Transcomunicação instrumental

As investigações do engenheiro Friedrich Jürgenson, na Suécia, nos anos cinquenta do século passado. Jürgenson gravava canto de pássaros para uma documentação ornitológica quando, ao rever as gravações, descobriu vozes que respondiam às suas perguntas e mencionavam o nome da sua mãe falecida. Estas investigações foram retomadas pelo psicólogo Konstantin Raudive, que documentou mais de cem mil gravações de vozes em condições controladas de laboratório, com equipamentos blindados contra interferências de rádio. O livro de Raudive, Breakthrough, foi analisado por engenheiros da Pye Records, no Reino Unido, que confirmaram a presença das vozes sem conseguir explicá-las. (14)

Roger fica em silêncio por um momento e diz:

— Tom, estes casos são extraordinários. E o que os torna diferentes de simples histórias é precisamente o facto de terem sido investigados com rigor, por pessoas sem interesse em provar coisa alguma, e de os detalhes terem sido verificados de forma independente.

— É exatamente isso, Roger. A força destes casos não está na fé de quem os viveu. Está na verificação independente dos factos. E são milhares, não dezenas. Em todos os continentes. Com padrões que se repetem de forma consistente, independentemente da cultura, da religião ou da época.

Roger, pensativo, diz:

— Mas Tom, lembras-te que anteriormente ficou por responder a questão de saber se a consciência é produto do cérebro? Estes estudos respondem a isso?

— Respondem, Roger. Se a consciência fosse apenas produto do cérebro, seria impossível que doentes em paragem cardíaca, sem qualquer atividade cerebral mensurável, tivessem experiências conscientes detalhadas e verificáveis. E seria impossível que crianças se recordassem com precisão de vidas anteriores. A correlação entre o cérebro e a consciência não significa que o cérebro a produza — significa que o cérebro é o instrumento através do qual o espírito se manifesta no mundo material. Quando o instrumento falha, a capacidade de o espírito se manifestar através dele fica reduzida — como um rádio com interferências, que distorce o sinal sem que a fonte da transmissão deixe de existir. A libertação completa do espírito do corpo físico apenas acontece com a morte.

Roger diz: — Quando uma pessoa sofre uma lesão no cérebro, a sua personalidade muda. Perde a memória, ou a fala, ou o juízo. Há casos de pessoas que mudaram completamente de carácter após uma lesão. Se a alma fosse independente do cérebro, como explicas que uma pancada na cabeça mude aquilo que a pessoa é?

Tom diz: — Volta à imagem da televisão. Imagina um aparelho de televisão avariado. A imagem aparece distorcida, as cores trocadas, o som falhado. Dirias, ao ver aquilo, que a avaria mudou o programa que está a ser transmitido? Não. O programa, na estação emissora, continua intacto. O que mudou foi a capacidade do aparelho de o mostrar fielmente. O cérebro é esse aparelho. Quando se danifica, o espírito não muda — o que muda é a forma como ele consegue manifestar-se através de um instrumento avariado. A personalidade que vemos alterada não é a alma que mudou; é a alma a exprimir-se através de um recetor estragado. Tira-se a avaria, e o sinal volta a passar limpo. E há algo que o materialismo não consegue explicar: se o cérebro produzisse a consciência, uma lesão deveria apenas diminuí-la, apagá-la aos poucos. No entanto, há casos documentados de lucidez terminal — doentes com o cérebro gravemente destruído pela demência que, horas antes de morrer, recuperam subitamente a clareza, reconhecem os familiares, despedem-se. Se a consciência fosse o cérebro, isso seria impossível. Um órgão destruído não produz lucidez. Mas uma fonte intacta, libertando-se de um instrumento que já não a prende, sim.

Roger fica em silêncio, e depois diz: — A televisão avariada não estraga o programa. Só estraga a forma de o ver. Entendi a analogia.

Tom sorri: — Exatamente.

Roger, intrigado, diz: — Mas, Tom, se estas investigações existem e são conduzidas por cientistas sérios em universidades respeitadas e publicadas em revistas científicas de referência, por que razão não são aceites por toda a comunidade científica?

— É uma pergunta muito pertinente, Roger, e as razões são várias. Primeiro, há um preconceito científico profundamente enraizado — muitos cientistas partem da conclusão de que a consciência é produto do cérebro e analisam qualquer evidência contrária com essa conclusão já formada. Não é ciência, é dogma com linguagem científica. Segundo, há preconceitos religiosos — e isto pode parecer surpreendente, mas há cientistas ligados a igrejas católicas ou protestantes para quem a reencarnação é uma heresia, e isso influencia inconscientemente a forma como avaliam as evidências. Terceiro, há um problema de carreira — um cientista que publique investigações sobre a sobrevivência da consciência arrisca-se a ser marginalizado pelos seus pares, perder financiamento e ver a sua reputação académica comprometida. O preço profissional de ir contra o consenso dominante é muito alto. Quarto, há simplesmente desinteresse — muitos cientistas consideram o tema irrelevante para as suas áreas de investigação e nunca se debruçaram sobre ele com seriedade. E por fim, há o problema do método — a ciência tradicional foi construída para estudar o mundo material e mensurável. Fenómenos que transcendem a matéria desafiam os próprios instrumentos e métodos da ciência convencional. Isso não significa que não existam — significa que exigem métodos de investigação mais abrangentes e humildes.

— A reencarnação, se fosse conhecida por toda a humanidade, não como um ato de fé mas como um facto insofismável, poderia causar uma grande revolução positiva na Terra.

— Sem dúvida meu amigo. A xenofobia, o racismo, as diferenças entre homens e mulheres, as diferenças entre classes sociais deixariam de ser um problema para a humanidade. A xenofobia, porque nós podemos encarnar em países que hoje consideramos nossos inimigos, e os nossos inimigos podem encarnar no nosso país. O nacionalismo, e pior ainda, o ultranacionalismo deixariam de fazer sentido. O racismo, porque nós podemos encarnar em corpos de qualquer etnia. E aqueles que hoje não pertencem à nossa podem vir a encarnar nela. O mesmo aconteceria com as diferenças existentes entre homens e mulheres, porque o espírito pode encarnar no corpo de um homem ou de uma mulher; com as diferenças sociais, porque nós podemos encarnar em todas as classes sociais.

— O que nos distingue verdadeiramente não é o país em que encarnamos, a cor de pele que temos, se somos homens ou mulheres, se somos ricos ou pobres. O que nos distingue é o nosso grau de evolução em relação aos outros. O espírito que é superior não procura rebaixar ninguém. O superior ajuda o inferior a tornar-se melhor.

— É verdade. As guerras, os conflitos de várias ordens deixariam de fazer qualquer sentido. A fome, a pobreza extrema desapareceriam da Terra.

— Pois é. Continuaria a haver pessoas mais ricas do que outras, porque a igualdade absoluta é uma utopia. Os espíritos não estão todos no mesmo pé de igualdade no que toca à sua evolução. Se distribuíssemos igualitariamente toda a riqueza que existe no mundo, em menos de cinco minutos já haveria pessoas mais ricas do que outras. O problema não está na existência da riqueza em si, mas está no exagero verificado na forma como ocorre a distribuição da riqueza. Não faz sentido que haja pessoas extremamente ricas e outras a morrer à fome.

— Tens razão. A humanidade passaria a ser extremamente cooperativa.

Roger, pensativo, diz:

— Tom, lembras-te que anteriormente perguntei de onde vêm as almas e quando foram criadas, e disseste que veríamos isso depois. Ainda não respondeste.

— Tens razão, Roger. A verdade é que não sabemos quando foram criadas. Deus criou-as, mas o momento da criação está além do nosso conhecimento atual. O que sabemos é que foram criadas simples e ignorantes — como uma folha em branco — e que desde então evoluem pelo seu próprio esforço e vontade em direção à perfeição. O caminho é longo, mas nenhuma alma fica para trás para sempre.

Bibliografia

  1. (1) O Livro dos Espíritos — Allan Kardec
  2. (2) O Evangelho Segundo o Espiritismo — Allan Kardec
  3. (3) O Céu e o Inferno Segundo o Espiritismo — Allan Kardec
  4. (4) Suma Teológica — Tomás de Aquino
  5. (5) Metafísica — Aristóteles
  6. (6) Ciência da Vida após a Morte — Alexander Moreira-Almeida, Marianna Costa e Humberto Schubert Coelho — Springer Nature
  7. (7) Twenty Cases Suggestive of Reincarnation / Life Before Life — Ian Stevenson / Jim Tucker — University of Virginia
  8. (8) Near-death experience in survivors of cardiac arrest — Pim van Lommel — The Lancet
  9. (9) Light and Death — Michael Sabom
  10. (10) Death-Bed Visions — Sir William Barrett
  11. (11) Near Death Experiences — Kimberly Clark Sharp
  12. (12) Many Lives, Many Masters — Brian Weiss
  13. (13) Report on Mrs. Piper — William James — Society for Psychical Research
  14. (14) Breakthrough — Konstantin Raudive
  15. Fim


"Conhecerás a Deus e amarás a Deus." — Spinoza

"A reencarnação é pedagogia de Deus e a sua grande escolha para conduzir o homem à felicidade plena."

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