A Grande Descoberta

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O nada existe?


Dois amigos, duas visões opostas da vida. Roger, ateu, acredita que caminhamos para o nada — até Tom lhe fazer uma pergunta simples: o que é o nada? Assim começa a conversa que dá origem a todo este percurso.

Parte I

A Grande Descoberta


Esta história é apresentada sob a forma de um suposto diálogo entre dois amigos — Tom e Roger — com visões completamente diferentes sobre a vida.

Após um silêncio momentâneo, Roger pergunta:

— Tom, por que motivo continuas a defender a existência de Deus? Não há comprovação científica de Deus, logo não acredito nele. Eu só acredito naquilo que vejo e no que a ciência comprova. Prepara-te meu amigo, prepara-te para o fim, para o nada.

Tom ri-se do tom tão dramático do amigo e pergunta:

— Então vamos para o nada? O que é o nada?

Roger recebe a pergunta do amigo como um soco no estômago e, surpreendido pela questão formulada por Tom, responde:

— O nada é o nada, é a não existência, é o vazio.

Tom, que já esperava pela resposta do amigo, pergunta:

— Tu dizes que a existência de Deus não tem comprovação científica, logo não faz sentido acreditar na sua existência. Mas, e o nada, o nada tem comprovação científica?

Roger, mais uma vez surpreendido pela questão de Tom, responde:

— Tom, deixa-te de filosofar. Essa tua pergunta não tem qualquer sentido lógico. Claro que o nada existe, toda a gente sabe disso.

Tom pergunta, ainda:

— Como pode o nada ter comprovação científica se não existe? Sim, o nada não existe, caro Roger. E apesar de o nada não existir, que, obviamente, não tem comprovação científica, ainda assim, acreditas na sua existência.

— Não existe? — Pergunta Roger, incrédulo com a afirmação do amigo — Claro que existe. Se existe alguma coisa, o nada também tem que existir. O nada é o oposto do tudo.

— Agora és tu quem está a filosofar, Roger. O nada não existe. Como não existe, não pode ter comprovação científica. Pensa comigo: o homem conhece tudo sobre tudo?

Roger responde rapidamente:

— É claro que não, que disparate, estamos muito longe de conhecer tudo sobre tudo, se é que algum dia seremos capazes de saber tudo sobre tudo.

Tom pergunta, então:

— Como podes, nesse caso, acreditar na existência do nada? Como podes falar no nada, se não conheces o tudo? Como podes considerar que o nada seja o destino final da alma?

Roger fica espantado com o argumento do amigo e diz:

— Nunca tal coisa me passou pela cabeça.

— É natural — responde Tom — Poucas são as pessoas que se dedicam a cultivar tais raciocínios. Quase todas as pessoas vivem uma vida muito mecânica: nascem, crescem e partem desta vida sem nunca se terem questionado sobre esta ordem de ideias.

Roger, agarrando-se a uma tábua de salvação como um náufrago para sustentar o seu pensamento ateísta, diz:

— Espera aí, Tom. Há qualquer coisa que te está a escapar.

— O quê? — Pergunta o amigo.

— A ciência fala do vácuo e, mais recentemente, a física quântica fala no vácuo quântico. Isso não é o nada? — Pergunta Roger.

— Para quem não conhece o tudo, sim, o vácuo, ou o vácuo quântico, até poderia ser o nada. Mas não é. E como já concluímos, ninguém sabe tudo sobre tudo.

Roger, não completamente satisfeito, insiste:

— Mas Tom, a física quântica não mostra que há eventos que acontecem sem causa? Partículas que surgem do vácuo espontaneamente, sem razão aparente? Isso não seria uma prova de que o acaso existe e que o nada pode produzir algo?

Tom responde com calma:

— É uma pergunta excelente, Roger, e mostra que te informas. Mas há aqui dois erros que importa separar. Primeiro, o vácuo quântico não é o nada — é um campo de energia com propriedades bem definidas, regido por leis matemáticas precisas. Um campo de energia com leis não é o nada, é qualquer coisa. Segundo, quando a física quântica fala em eventos sem causa aparente, a palavra-chave é aparente. Significa que ainda não conhecemos a causa, não que a causa não existe. É o mesmo princípio do nada e do acaso — exprimem o limite do nosso conhecimento, não a ausência de realidade.

Roger fica em silêncio por uns momentos e diz:

— Então o vácuo quântico, longe de ser uma prova do nada, é mais uma prova de que há sempre algo em vez de nada.

— Exatamente — diz Tom — A questão não é o que a física quântica ainda não explica, mas que tudo o que ela descobre confirma a mesma coisa: há sempre ordem, há sempre lei, há sempre algo.

— Sim, isso é verdade, mas assim como eu não posso dizer que o nada existe, tu também não podes afirmar que o nada não existe. Certo?

Tom olha para o amigo e diz:

— Meu amigo Roger, de certa forma, posso sim, porque até hoje não existe qualquer evidência científica que possa apontar-nos a existência do nada. E já percebemos que o vácuo ou o vácuo quântico não são evidências da existência do nada. Por outro lado, se tu pensares no nada, percebes que não passa de um conceito completamente abstrato, desprovido de qualquer sentido. É mesmo um absurdo.

Roger está impressionado com a argumentação do amigo. Nunca esperou que a conversa o levasse a bater de frente com as suas convicções e a revê-las.

Quando Roger estava prestes a falar, Tom diz:

— Existem expressões completamente absurdas que as pessoas costumam usar. Certas pessoas dizem, por exemplo, eu quero um pão com nada ou quero um pão sem nada. O correto seria dizerem: eu quero um pão sem coisa alguma. Um pão sem coisa alguma é um pão desprovido de qualquer outro alimento ou ingrediente.

— Faz sentido — diz Roger — Muitas vezes utilizamos determinadas expressões a que não prestamos a mais pequena atenção. São expressões absurdas, repetidas de geração em geração, sem que sejam abolidas do vocabulário quotidiano.

— Grande verdade, Roger. Quando não sabemos que estamos a usar uma expressão absurda, como podemos eliminá-la do nosso vocabulário?

Roger, sentando-se confortavelmente no sofá, diz:

— Confesso que fiquei muito impressionado com a tua argumentação sobre a questão do nada.

Tom pega no copo de vinho do Porto que o amigo lhe passou para a mão e diz:

— É compreensível que assim seja. Um dos grandes pilares do ateísmo foi destruído. Sim, refiro-me ao niilismo.

Roger, curioso, pergunta:

— Niilismo? Explica-me melhor.

— O niilismo é a crença de que a existência não tem significado, propósito ou valor. E o seu fundamento último é precisamente o nada — a ideia de que no fim tudo se dissolve no vazio. Se o nada não existe, o niilismo perde o chão em que assenta. Não há como defender que a existência é sem sentido, se não há nada para a receber no fim.

Roger, tomando um gole do seu vinho, diz:

— Mas eu continuo a ser ateu. Não é porque o nada não existe que eu abandono a minha convicção.

Tom ri-se e diz:

— Eu esperava isso de ti, meu amigo. Então, após a morte, para onde vamos? Já não podes dizer que vamos para o nada.

Roger já esperava a pergunta do amigo e diz:

— É verdade, já não posso dizer que vamos para o nada. Mas deixamos de existir, simplesmente.

Tom, pegando em alguma coisa para comer, afirma:

— Não, caro Roger! Nem o corpo nem a alma deixam de existir. O corpo é transformado; a alma é questão para outra conversa.

Roger, intrigado, diz:

— Transformado? Explica-me isso.

— A ciência ela própria nos diz que a energia não se cria nem se destrói, apenas se transforma. O corpo físico, após a morte, não desaparece — os seus elementos regressam à natureza, transformam-se. A matéria que nos constitui existia antes de nós e continuará a existir depois de nós. Portanto, nem no plano físico há aniquilação. Há transformação. A questão da alma, essa sim, ficará para outra conversa.

Roger ri-se e, pegando também em alguma coisa para comer, diz:

— Se a alma é criação de Deus e Deus não existe, logo não existe alma nenhuma.

Excerto da obra A Grande Descoberta, de César Manuel Malainho de Oliveira.
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