Percurso · Passo 9 de 22
A alma existia antes do corpo?
Se cada alma fosse criada para o seu corpo, como explicar as diferenças entre irmãos criados da mesma forma? Tom mostra que só há uma resposta compatível com a justiça de Deus.
— A alma foi criada para aquele corpo ou já existia antes dele?
— Excelente pergunta, porém muito fácil de responder. Se a alma fosse criada para determinado corpo, como explicar o facto de umas crianças serem boas e outras más, rebeldes, dentro da mesma família, inseridas no mesmo meio, tendo ambas uma educação semelhante? São almas muito diferentes. De onde viria essa diferença? De onde viria essa bondade, docilidade numas e noutras a maldade, a rebeldia, se elas não existissem antes dos seus corpos materiais? Será que Deus criou umas almas melhores do que outras? Óbvio que não. Essa ideia viola o atributo de que Deus é infinitamente justo e bom. Sendo Deus a suprema justiça e bondade, não pode criar umas almas melhores do que outras. Deus tem que criá-las a todas no mesmo estado, no mesmo nível de desenvolvimento.
Roger interrompe Tom e diz:
— Entendo agora o motivo por que não podemos compreender a alma e o seu destino sem compreender os atributos de Deus. Continua Tom.
— Sem dúvida, Roger. Se não compreendermos os atributos de Deus, não podemos compreender a alma e o seu destino. Ainda falando das crianças, imagina duas crianças: uma nasce numa família boa, que lhe dá bons exemplos. Já a outra nasce numa família má, perversa, que lhe dá os piores exemplos.
Mais uma vez, a ideia de que as almas são criadas para o corpo viola o atributo da soberana justiça e bondade de Deus, porque, enquanto uma alma teria mais facilidade de seguir o bom caminho, a outra mais facilmente seria arrastada para a maldade e a perversidade (é uma tendência, não é um arrastamento irresistível, visto que famílias boas podem ter crianças más e famílias más podem ter crianças boas), por que razão Deus colocaria uma alma numa família boa e outra numa família má? O pensamento de que a alma é criada para o corpo, que não existia antes deste, viola o atributo da suprema justiça e bondade de Deus.
Roger faz sinal ao amigo que continue.
— Se a alma fosse criada para o corpo e não existisse antes dele, qual seria o destino dessa alma quando uma criança morre em tenra idade ou pouco tempo depois de nascer? Essa alma não teve tempo para fazer o mal nem o bem. Então, para onde iria ela após a morte do corpo físico? Para um inferno qualquer? Não, porque nada fez que justificasse tal castigo. Para qualquer tipo de céu ou paraíso? Mas que bem ela fez que justifique tal prémio? Para qualquer limbo? Não seria isso um castigo ou um prémio? Essa ideia viola o atributo da suprema justiça e bondade de Deus.
Roger está abismado com a argumentação do amigo e diz:
— Sim, sim, não faz sentido nenhum que a alma seja criada para o corpo. Sim, Deus só pode ter criado as almas todas iguais.
— Sem dúvida, meu amigo. Deus criou todas as almas iguais, como uma folha em branco. Pouco a pouco, elas vão escrevendo a sua história, marcando-a com os traços da sua vontade.
Excerto da obra A Grande Descoberta, de César Manuel Malainho de Oliveira.
Ler a obra completa · Ouvir a obra