Percurso · Passo 12 de 22
A reencarnação está na Bíblia ou nos Evangelhos?
Pode falar-se da Bíblia sem religião? Tom acredita que sim — e mostra a Roger as passagens em que as existências sucessivas aparecem nas próprias palavras de Jesus.
— Tom, eu sei que a nossa conversa não tem um carácter religioso, mas sabes dizer-me se na Bíblia ou nos Evangelhos existe alguma passagem referente às existências sucessivas ou reencarnação?
— Podemos falar sobre a Bíblia ou os Evangelhos sem um carácter religioso. Por exemplo, os Evangelhos são como que biografias de Jesus de Nazaré. Também podemos falar de Jesus de Nazaré sem um carácter religioso. Jesus foi uma alma extraordinária que encarnou na Terra para ajudar a humanidade a progredir. Jesus é muito mais um filósofo, um terapeuta, do que um religioso. As religiões é que tentaram, cada uma à sua maneira, tomar Deus e Jesus para si. Mas Jesus é uma alma muito acima de qualquer religião existente na Terra. Mas, respondendo à tua pergunta, sim, existem. Vou falar-te de algumas, das mais claras.
Roger agradece a disposição do amigo e faz-lhe sinal para que o faça.
— Ora, entre os fariseus, havia um homem chamado Nicodemos, senador dos judeus, que veio à noite ter com Jesus e lhe disse: Mestre, sabemos que vieste da parte de Deus para nos instruir, porquanto ninguém poderia fazer os milagres que fazes se Deus não estivesse contigo. Jesus lhe respondeu: Em verdade, em verdade, digo-te: Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo. Disse-lhe Nicodemos: Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez? (2)
— Vês aí a ideia transmitida por Jesus das existências sucessivas?
Roger, pensativo, diz:
— Mas Tom, muitos católicos e muitos protestantes interpretam o nascer de novo como uma conversão espiritual, não como uma reencarnação física. Como respondes a isso?
— É uma interpretação possível, Roger. Mas repara na resposta de Nicodemos — ele pergunta literalmente se um homem pode voltar a entrar no ventre da mãe para nascer segunda vez. Se Jesus estivesse a falar apenas de conversão espiritual, Nicodemos não teria feito essa pergunta. A resposta de Nicodemos mostra que ele entendeu Jesus como estando a falar de um nascimento físico. E Jesus não o corrigiu. Se a interpretação de Nicodemos estivesse errada, Jesus tê-lo-ia corrigido imediatamente — como fez em tantas outras ocasiões.
Roger faz sinal ao amigo que continue.
— Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso pai, que está nos céus, dará bens aos que lhos pedirem? (Mateus) — Nestas palavras de Mateus está claramente demonstrada a impossibilidade das penas eternas. Se nós, pais da Terra, que somos imperfeitos, damos boas coisas aos nossos filhos, imagine-se o que fará Deus com todos os seus filhos, sem exceção. Faria sentido que Deus desse sofrimento eterno a alguma de suas criaturas? Se pais, que são imperfeitos, estão sempre dispostos a perdoar a seus filhos, imagine-se o que não fará a infinita bondade por seus filhos para que eles sigam o caminho do bem. (2)
Roger faz sinal para que Tom continue.
— Eu juro por mim mesmo que não quero a morte do ímpio, mas que o ímpio se converta, que abandone o mau caminho e que viva. (Ezequiel, cap. XXXIII, v. 11) — Essa passagem da Bíblia não é clara, mostrando-nos a impossibilidade de qualquer inferno eterno?
— Sem dúvida, Tom, a ideia de um castigo eterno é totalmente contrária à suprema justiça e bondade de Deus. Se as almas reencarnam, elas têm sempre a possibilidade de se melhorar. Há mais passagens?
— Sim, há. Há uma passagem nos Evangelhos que mostra claramente que João Batista é a reencarnação de Elias, um dos profetas do passado.
Roger, a ideia dos castigos eternos foi útil no tempo de Moisés, quando era necessário acreditar num Deus castigador e terrível para que aquele povo o fosse respeitando por medo e não por amor. Os homens desse tempo não ficariam impressionados com as penas morais, e até chegariam a considerar Deus um ser fraco que não se fazia respeitar. Jesus, porém, já veio mais tarde, proclamar um Deus clemente, misericordioso.
Roger, curioso, diz:
— Qual é essa passagem sobre João Batista e Elias?
— Em Mateus, capítulo 11, versículo 14, Jesus diz claramente aos seus discípulos, a propósito de João Batista: E, se o quereis aceitar, ele é o Elias que devia vir. E em Mateus 17, versículo 12, Jesus diz ainda: Elias já veio, e não o reconheceram. Os próprios discípulos compreenderam que Jesus estava a falar de João Batista. É uma das referências mais diretas à reencarnação nos Evangelhos — e vem das próprias palavras de Jesus. (2)
Roger faz sinal para que o amigo continue.
— Jesus, repetidas vezes, nos ensinou a perdoar aos nossos inimigos. Deus poderia ser impiedoso condenando apenas uma de suas criaturas ao suplício eterno? Claro que não.
— Pois, porque o perdão seria bom para as almas. Seriam as almas melhores do que Deus? Não. Deus, vingando-se por um castigo infinito, seria logo infinitamente vingativo e, então, já não poderia ser infinitamente bom. Se Deus não perdoasse ao arrependido, seria impiedoso e, sendo impiedoso, já não poderia ser bom. Se Deus é todo misericordioso para a alma arrependida antes da morte, por que deixará de o ser para quem se arrepende depois dela? Porquê a eficácia do arrependimento só durante a vida, um breve instante, e não na eternidade, que não tem fim? Circunscritas a um dado tempo, a bondade e a misericórdia divinas teriam limites, e Deus não seria infinitamente bom. Se a pena fosse irrevogável, inútil seria o arrependimento, e o culpado, nada tendo a esperar de sua correção, persistiria no mal, de modo que Deus não só o condenaria a sofrer perpetuamente, mas ainda a permanecer no mal por toda a eternidade. Nisso não há bondade nem justiça nem inteligência. (3)
— Excelentes observações, Roger.
Excerto da obra A Grande Descoberta, de César Manuel Malainho de Oliveira.
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