Percurso · Passo 16 de 22
Já vivemos com a nossa família noutras vidas?
Se já vivemos muitas vidas, que antiguidade têm os nossos afetos? E que dizer das famílias em conflito? As respostas desmontam, de caminho, todos os preconceitos humanos.
— É incrível a lógica, a justiça e a bondade de Deus. Uma pergunta: Será que nós dois fomos também amigos em existências anteriores?
— É possível. Mas também poderíamos ter tido uma relação de pai e filho, de irmãos, ou qualquer outro grau de parentesco. Todas as boas relações nesta vida podem já ter uma antiguidade maior do que se supõe. A reencarnação fortalece os laços de família, ao passo que a unicidade das existências os rompe.
— E como explicar certas relações familiares tumultuadas por relações de ódios, ressentimentos, animosidades?
— Certos espíritos, que já eram inimigos em existências anteriores, reúnem-se numa família para diluir esses sentimentos antagónicos. É uma tentativa de aproximação entre esses espíritos, que nem sempre conseguem esse intento.
— Pode ocorrer que dois espíritos que não se conhecem possam encarnar numa mesma família?
— Sim, pode, são os indiferentes. Nem amigos, nem inimigos. Mas, normalmente, no espaço os Espíritos formam grupos ou famílias entrelaçados pela afeição, pela simpatia e pela semelhança das inclinações. Ditosos por se encontrarem juntos, esses Espíritos buscam-se uns aos outros. A encarnação apenas os separa momentaneamente, porque, ao regressarem à vida espiritual, reúnem-se novamente, como tratando-se de amigos que voltam de uma viagem. Muitas vezes, até, uns seguem a outros na encarnação, vindo aqui reunir-se numa mesma família, ou num mesmo círculo, a fim de trabalharem juntos pelo seu mútuo adiantamento. Se uns encarnam e outros não, nem por isso deixam de estar unidos pelo pensamento. Os que se conservam livres velam pelos que se acham em cativeiro. Os mais adiantados esforçam-se por ajudar os retardatários a progredir. Após cada existência, todos têm avançado um passo na senda do aperfeiçoamento. (2)
— Uma vez que já tivemos muitas existências, a nossa parentela vai além da que faz parte da nossa existência atual?
— Não pode ser de outra maneira. A sucessão das existências corpóreas estabelece entre os espíritos ligações que remontam a existências anteriores. É por isso que, muitas vezes, a simpatia ou antipatia que existe entre duas ou mais pessoas nos parece estranha.
— O espírito que animou o corpo de um homem pode animar o de uma mulher, e vice-versa?
— Evidentemente. O espírito tem que passar por todo o tipo de experiências que o torne melhor. Se o espírito só animasse corpos de homens só saberia o que os homens sabem, e vice-versa.
Roger, pensativo, diz:
— Isso tem implicações enormes, Tom. Significa que qualquer homem que hoje menospreze as mulheres pode ter sido mulher em existências anteriores. E qualquer preconceito de género perde completamente o sentido.
— Exatamente, Roger. E o mesmo se aplica ao racismo, à xenofobia, às diferenças de classe social. A ciência já confirmou que existe apenas uma espécie humana — o que existe são diferentes etnias. Se o espírito pode encarnar em corpos de diferentes etnias, géneros, nacionalidades e classes sociais, então todos esses preconceitos revelam apenas a ignorância de quem os tem. No fundo, quando olhamos para outro ser humano com desprezo, podemos estar a olhar para o que fomos ou para o que seremos.
Excerto da obra A Grande Descoberta, de César Manuel Malainho de Oliveira.
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