A Grande Descoberta

Percurso · Passo 15 de 22

Porque é que Deus permite o sofrimento?


Era a pergunta que ficara em aberto desde os atributos de Deus. E é o próprio Roger quem, com tudo o que aprendeu, constrói a resposta — antes de Tom a completar com as três condições que apagam toda a falta.

Roger, de repente, diz:

— Tom, lembras-te que anteriormente te perguntei como pode um Deus infinitamente bom permitir o sofrimento no mundo? Disseste que resolverias isso mais tarde. Acho que agora já consigo responder eu mesmo a essa questão.

— Diz-me, Roger.

— O sofrimento não é um castigo arbitrário de Deus. É a consequência natural das imperfeições das almas e do uso que fazem do seu livre-arbítrio. Deus deu às suas criaturas a liberdade de escolher — e com essa liberdade vem a responsabilidade pelas consequências das suas escolhas. O mal não vem de Deus — vem da imperfeição dos espíritos que ainda estão a evoluir. E as leis morais que Deus criou funcionam como bússola — quando as violamos, sofremos as consequências, não como vingança, mas como aprendizagem. Como quando alguém come em excesso e fica com dor de barriga — não é um castigo, é uma consequência natural que ensina.

— Não podia ter dito melhor, Roger. O sofrimento, visto através do prisma de uma única existência, parece injusto. Visto através do prisma da eternidade da alma e da reencarnação, revela-se como parte de um processo de evolução e aperfeiçoamento. A justiça de Deus não é a justiça humana — é infinitamente mais sábia e mais abrangente.

— Como se deve entender o castigo de Deus?

— Como um ato de bondade, porque enquanto o espírito persistir no mal estará longe da felicidade. E Deus criou os espíritos para a suprema felicidade. O castigo de Deus é um ato de educação e não de vingança.

Roger pede ao amigo que continue.

— Uma condição inerente à inferioridade dos espíritos é desconhecerem o termo da provação, acreditando-a eterna, como eterno lhes parece deva ser um tal castigo. O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação. Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências. O arrependimento pode dar-se durante a vida terrena ou na espiritualidade, em qualquer tempo; se for tarde, porém, o culpado sofre por mais tempo. A expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais que lhe são consequentes, seja na vida atual, seja na vida espiritual após a morte, ou ainda em nova existência corporal. Nem todas as faltas acarretam prejuízo direto e efetivo; em tais casos, a reparação opera-se, fazendo-se o que se deveria ter feito e foi descurado; cumprindo os deveres desprezados, as missões não preenchidas. A responsabilidade das faltas é inteiramente pessoal, ninguém sofre por erros alheios, salvo se a eles deu origem, quer provocando-os pelo exemplo, quer não os impedindo quando poderia fazê-lo. Certo, a misericórdia de Deus é infinita, mas não é cega. O culpado que ela atinge não fica livre e, enquanto existir a causa, sofre a consequência dos seus erros. (3)

Excerto da obra A Grande Descoberta, de César Manuel Malainho de Oliveira.
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