Percurso · Passo 14 de 22
Quantas vezes reencarnamos?
Há um número de vidas? Um fim para o processo? A resposta de Tom desenha a lei que governa toda a evolução das almas — onde nada se perde e tudo se paga.
— O espírito reencarna quantas vezes? Ou também é eterno o processo de reencarnação, tal como a alma?
— O espírito encarna tantas vezes quantas forem necessárias. No momento que já não for mais necessário que ele encarne, ele vive apenas e só como espírito.
— Então a encarnação apenas se dá enquanto o espírito for imperfeito, é isso?
— Sim, isso mesmo. Quando ele não precisar de encarnar mais é porque já atingiu o estado de pureza. Já evoluiu, tanto intelectualmente como moralmente, ao ponto de ser um espírito puro. A completa felicidade prende-se à perfeição, isto é, à purificação completa do espírito. Não há uma única imperfeição da alma que não implique inevitáveis consequências, como não há uma só qualidade que não resulte numa fruição. Em virtude da lei do progresso, que dá a toda a alma a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta, como de despojar-se do que tem de mau, conforme o esforço e vontade próprios, a evolução é aberta a todas as criaturas. Dependendo o sofrimento da imperfeição, como a fruição depende da perfeição, a alma traz consigo o próprio castigo ou prémio, onde quer que se encontre. O bem e o mal que fazemos decorrem do estágio evolutivo que alcançámos. Não fazer o bem quando podemos é, portanto, o resultado de uma imperfeição. Se toda a imperfeição é fonte de sofrimento, o espírito sofrerá, não somente pelo mal que fez, como pelo bem que deixou de fazer na sua vida. O espírito sofre pelo mal que fez, de maneira que, sendo a sua atenção constantemente dirigida para as consequências desse mal, melhor compreende os seus inconvenientes e trata de corrigir-se. Sendo infinita a justiça de Deus, o bem e o mal são rigorosamente considerados, não havendo uma só ação, um só pensamento bom ou mau que não tenha consequências. Não há um único movimento bom da alma que se perca, mesmo nos mais perversos, constituindo tais ações um começo de progresso. Toda a falta cometida, todo o mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se o não for em uma existência, sê-lo-á na seguinte ou seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si. Aquele que se quita numa existência, não terá necessidade de pagar segunda vez. (3)
— Daí a suprema justiça e bondade de Deus. A justiça não deve anular a bondade, nem a bondade deve anular a justiça. Justiça e bondade devem andar de mãos dadas para que a justiça não se transforme em impiedade ou vingança, e a bondade sem a justiça não se transforme em injustiça.
— Sem dúvida. Deus concilia a justiça e a bondade na perfeição.
Roger faz sinal para que Tom continue.
— O espírito sofre, quer no mundo corporal, quer no espiritual, a consequência das suas imperfeições. As misérias, as vicissitudes padecidas na vida corpórea, são oriundas das nossas imperfeições, são expiações de faltas cometidas na presente ou em precedentes existências. Pela natureza dos sofrimentos e vicissitudes da vida corpórea, pode julgar-se a natureza das faltas cometidas em anterior existência, e das imperfeições que as originaram. A expiação varia segundo a natureza e gravidade da falta, podendo, portanto, a mesma falta determinar expiações diversas, conforme as circunstâncias, atenuantes ou agravantes, em que for cometida. Não há regra absoluta nem uniforme quanto à natureza e duração da expiação. A sua duração depende da melhoria do espírito culpado. Se existisse uma condenação por tempo predeterminado teria o duplo inconveniente de continuar o martírio do espírito renegado, ou de libertá-lo do sofrimento quando ainda permanecesse no mal. Ora, Deus, que é justo, só pune o mal enquanto existe, e deixa de o punir quando já não existe. Por outro lado, o mal moral, sendo por si mesmo causa de sofrimento, fará este durar enquanto subsistir aquele, ou diminuirá de intensidade à medida que ele decresça. (3)
Excerto da obra A Grande Descoberta, de César Manuel Malainho de Oliveira.
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