Percurso · Passo 19 de 22
A consciência é produto do cérebro?
Era a objeção adiada desde a definição da alma: as lesões cerebrais mudam a personalidade — não prova isso que a consciência é o cérebro? A resposta de Tom fecha o círculo aberto muitas páginas atrás.
Roger, pensativo, diz:
— Mas Tom, lembras-te que anteriormente ficou por responder a questão de saber se a consciência é produto do cérebro? Estes estudos respondem a isso?
— Respondem, Roger. Se a consciência fosse apenas produto do cérebro, seria impossível que doentes em paragem cardíaca, sem qualquer atividade cerebral mensurável, tivessem experiências conscientes detalhadas e verificáveis. E seria impossível que crianças se recordassem com precisão de vidas anteriores. A correlação entre o cérebro e a consciência não significa que o cérebro a produza — significa que o cérebro é o instrumento através do qual o espírito se manifesta no mundo material. Quando o instrumento falha, a capacidade de o espírito se manifestar através dele fica reduzida — como um rádio com interferências, que distorce o sinal sem que a fonte da transmissão deixe de existir. A libertação completa do espírito do corpo físico apenas acontece com a morte.
Roger diz: — Quando uma pessoa sofre uma lesão no cérebro, a sua personalidade muda. Perde a memória, ou a fala, ou o juízo. Há casos de pessoas que mudaram completamente de carácter após uma lesão. Se a alma fosse independente do cérebro, como explicas que uma pancada na cabeça mude aquilo que a pessoa é?
Tom diz: — Volta à imagem da televisão. Imagina um aparelho de televisão avariado. A imagem aparece distorcida, as cores trocadas, o som falhado. Dirias, ao ver aquilo, que a avaria mudou o programa que está a ser transmitido? Não. O programa, na estação emissora, continua intacto. O que mudou foi a capacidade do aparelho de o mostrar fielmente. O cérebro é esse aparelho. Quando se danifica, o espírito não muda — o que muda é a forma como ele consegue manifestar-se através de um instrumento avariado. A personalidade que vemos alterada não é a alma que mudou; é a alma a exprimir-se através de um recetor estragado. Tira-se a avaria, e o sinal volta a passar limpo. E há algo que o materialismo não consegue explicar: se o cérebro produzisse a consciência, uma lesão deveria apenas diminuí-la, apagá-la aos poucos. No entanto, há casos documentados de lucidez terminal — doentes com o cérebro gravemente destruído pela demência que, horas antes de morrer, recuperam subitamente a clareza, reconhecem os familiares, despedem-se. Se a consciência fosse o cérebro, isso seria impossível. Um órgão destruído não produz lucidez. Mas uma fonte intacta, libertando-se de um instrumento que já não a prende, sim.
Roger fica em silêncio, e depois diz: — A televisão avariada não estraga o programa. Só estraga a forma de o ver. Entendi a analogia.
Tom sorri: — Exatamente.
Excerto da obra A Grande Descoberta, de César Manuel Malainho de Oliveira.
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