Percurso · Passo 6 de 22
Como definir Deus?
Antes de falar da alma e do seu destino, é preciso conhecer a natureza de Deus. Não pela fé — pela razão: cada atributo demonstrado como consequência necessária, e cada um a depender dos outros.
A Grande Escolha
Esta história é apresentada sob a forma de um suposto diálogo entre dois amigos — Tom e Roger — que têm visões completamente diferentes sobre a vida. Na primeira parte, abordámos a questão de Deus, a causa das causas e as provas científico-filosóficas da sua existência.
Após um silêncio momentâneo, Roger pergunta:
— Tom, é hoje que me vais falar sobre a alma e o seu destino após a morte?
— Antes de falarmos da questão da alma e do seu destino, temos que procurar conhecer um pouco que seja da natureza de Deus. Nós não sabemos ainda tudo o que ele é, mas já podemos fazer uma ideia do que ele não pode deixar de ser. Já sabemos da sua existência, agora precisamos de compreender os seus atributos.
— E quais são esses atributos? — Pergunta Roger cada vez mais curioso.
— Deus é a suprema e soberana inteligência. É eterno, imutável, imaterial, omnipotente, soberanamente justo e bom, infinitamente perfeito, único. Estes são os atributos que Deus não pode deixar de ter.
Roger olha para o seu amigo e diz:
— Explica isso melhor. Por que motivo Deus não pode deixar de ter esses atributos?
Tom, agradado com a pergunta de Roger, explica:
— Deus é a suprema e soberana inteligência porque abrange o infinito. Por isso, tem que ser infinita. Se a supuséssemos limitada num ponto qualquer, poderíamos conceber outro ser mais inteligente, capaz de compreender e fazer o que o primeiro não faria, e assim por diante, até ao infinito.
Roger faz sinal ao amigo para que continue.
— Deus é eterno porque não teve começo e não terá fim. Se tivesse tido princípio, houvera saído do nada. Ora, não sendo o nada coisa alguma, coisa nenhuma pode produzir. Ou, então, teria sido criado por outro ser anterior e, nesse caso, este ser é que seria Deus. Se lhe supuséssemos um começo ou um fim, poderíamos conceber uma entidade existente antes dele e capaz de lhe sobreviver, e assim por diante, até ao infinito.
Roger, lembrando-se de uma conversa anterior com o amigo, diz:
— Sim, chegámos a essa conclusão numa conversa anterior. Realmente não pode deixar de ser a suprema e soberana inteligência e, claro, também não pode deixar de ser eterno. Podes continuar?
— Deus é imutável porque se estivesse sujeito a mudanças, nenhuma estabilidade teriam as leis que regem o universo.
Roger, franzindo o sobrolho, diz:
— Imutável? Mas o universo está em constante mudança, evolução, expansão. Como pode a causa de tudo isso ser imutável?
— É uma distinção importante, Roger. O universo muda — mas as leis que o governam não mudam. A gravidade funcionava da mesma forma há mil milhões de anos e funcionará da mesma forma daqui a mil milhões de anos. A velocidade da luz é constante. As constantes matemáticas são eternas. Se a causa primária mudasse, as leis mudariam com ela — e o universo seria imprevisível, caótico, impossível de compreender pela ciência. O facto de a ciência ser possível — o facto de podermos descobrir leis e confiar nelas — é em si mesmo uma evidência da imutabilidade da causa que as sustenta.
Roger faz sinal ao amigo para que continue.
— Deus é imaterial porque a sua natureza difere de tudo a que chamamos matéria. De outro modo, não seria imutável, pois estaria sujeito às transformações da matéria.
Roger, pensativo, diz:
— Mas, Tom, se Deus é imaterial, como pode interagir com um universo material?
— Repara, Roger, Einstein demonstrou que matéria e energia são duas formas da mesma realidade — E=mc2. O vapor não é sólido como a pedra, mas move locomotivas e barcos. Mesmo dentro do universo existem realidades profundamente diferentes que interagem entre si. Campos invisíveis movem partículas. A gravidade atua à distância. A própria física moderna mostrou-nos que a realidade é muito mais profunda do que a antiga ideia de matéria sólida. Portanto, o simples facto de Deus ser de uma natureza diferente da matéria não significa que não possa agir sobre ela. Significa apenas que a nossa compreensão da realidade ainda é limitada.
Roger fica admirado com a ligação entre os atributos e diz:
— É incrível, Tom. Os atributos precisam de estar ligados entre si para que façam sentido. Continua meu amigo, continua.
— Deus é omnipotente porque se não possuísse o poder supremo, sempre se poderia conceber uma entidade mais poderosa, e assim por diante, até chegar-se ao ser cuja potencialidade nenhum outro ser ultrapassasse. Esse, então, é que seria Deus.
Roger acena ao amigo para que continue.
— Deus é soberanamente justo e bom porque a providencial sabedoria das leis divinas se revela nas mais pequeninas coisas, como nas maiores, não permitindo essa sabedoria que se duvide da sua justiça, nem da sua bondade. O facto de o ser ter infinita uma qualidade, exclui a possibilidade de uma qualidade contrária, porque esta a apoucaria ou anularia. Um ser infinitamente bom não poderia conter a mais insignificante parcela de malignidade. Deus, pois, não poderia ser simultaneamente bom e mau, porque, não possuindo qualquer dessas duas qualidades no grau supremo, não seria Deus; todas as coisas estariam sujeitas ao seu capricho e para nenhuma delas haveria estabilidade. Não poderia ele, por conseguinte, deixar de ser ou infinitamente bom ou infinitamente mau. Ora, como as suas obras dão testemunho da sua sabedoria, da sua bondade e da sua solicitude, concluir-se-á que, não podendo ser ao mesmo tempo bom e mau sem deixar de ser Deus, ele necessariamente tem de ser infinitamente bom. A soberana bondade implica a soberana justiça, porquanto, se ele procedesse injustamente ou com parcialidade numa só circunstância que fosse, ou com relação a uma só de suas criaturas, já não seria soberanamente justo e, em consequência, já não seria soberanamente bom.
Roger, franzindo o sobrolho, diz:
— Mas, Tom, se Deus é infinitamente bom, como explicas o sofrimento no mundo? As guerras, as doenças, a morte de inocentes. Como pode um Deus infinitamente bom permitir isso?
— É uma excelente pergunta que vamos ver mais tarde. Antes precisas de entender uma série de detalhes que ainda não compreendes.
Roger fica mais uma vez surpreendido com os argumentos do amigo e diz:
— Estou impressionado com os argumentos que utilizas sobre os atributos de Deus. Podes continuar.
— Deus é infinitamente perfeito porque é impossível conceber-se Deus sem o infinito das perfeições, sem o que não seria Deus, pois sempre se poderia conceber um ser que possuísse o que lhe faltasse. Para que nenhum ser possa ultrapassá-lo, faz-se mister que ele seja infinito em tudo. Sendo infinitos, os atributos de Deus não são suscetíveis de aumento nem de diminuição, caso contrário não seriam infinitos e Deus não seria perfeito. Se retirassem a qualquer dos seus atributos a mais mínima parcela, já não haveria Deus, pois poderia existir um ser mais perfeito.
Roger pede ao amigo que continue.
— Deus é único, porque a unicidade de Deus é consequência do facto de serem infinitas as suas perfeições. Não poderia existir outro Deus, salvo sob a condição de ser igualmente infinito em todas as coisas, visto que, se houvesse entre eles a mais ligeira diferença, um seria inferior ao outro, subordinado ao poder desse outro e, então, não seria Deus. Se houvesse entre ambos igualdade absoluta, isso equivaleria a existir, de toda a eternidade, um mesmo pensamento, uma mesma vontade, um mesmo poder. Confundidos assim, quanto à identidade, não haveria, em realidade, mais que um único Deus. Se cada um tivesse atribuições especiais, um não faria o que o outro fizesse; mas, então, não existiria igualdade perfeita entre eles, pois nenhum possuiria a autoridade soberana. Em resumo, Deus não pode ser Deus senão sob a condição de que nenhum outro o ultrapasse, porque o ser que o excedesse no que quer que fosse, ainda que apenas na espessura de um cabelo, é que seria o verdadeiro Deus. Para que tal não se dê, é indispensável que ele seja infinito em tudo. (1)(4)(5)
Roger fica maravilhado com a lógica irrefutável que o amigo lhe apresenta sobre os atributos de Deus e diz: — Tom, estou surpreendido com a tua exposição dos atributos de Deus. Compreendo-os a todos e vejo que uns não podem existir sem os outros. Contudo, qual é a relação entre a alma e o seu destino com os atributos de Deus?
Tom abre um sorriso e diz:
— Roger, eles são imprescindíveis para compreendermos a alma e o seu destino. Mas estamos ainda apenas no início e falta ligar muitos pontos.
— Caro Tom, o destino da alma após a morte é apenas uma questão de fé. Umas religiões dizem uma coisa, outras dizem outra. Algumas falam de céu, inferno, paraíso. Falam de almas, espíritos, anjos, demónios. Enfim, tudo isso não passa de uma questão de fé.
— Não Roger, isso não é uma questão de fé. As nossas conversas não têm um carácter religioso. Não pretendemos aqui defender a religião A, B ou C. As nossas conversas são sempre científico-filosóficas.
Roger, surpreendido, diz:
— Mas Tom, como podes falar da alma sem falar de religião? A alma é um conceito religioso.
— É verdade que as religiões falam da alma há milénios, Roger. Mas a alma não é propriedade exclusiva da religião. Platão explorava a natureza da alma como uma questão filosófica e racional, pela força da razão pura, independentemente de qualquer crença. Pitágoras, os estoicos, os neoplatónicos fizeram o mesmo. O mais interessante é que pensadores de épocas, culturas e tradições completamente diferentes chegaram às mesmas conclusões sobre a alma — não pela fé, mas pela razão. E mais recentemente, investigadores como o Dr. Alexander Moreira-Almeida, o Dr. Ian Stevenson e o Dr. Pim van Lommel têm estudado a alma e a sobrevivência da consciência com todo o rigor científico. A questão da alma pode ser abordada com rigor filosófico e científico, sem necessidade de invocar qualquer religião. É precisamente isso que faremos. (6)(7)(8)
Roger fica surpreendido com a resposta do amigo e diz animado:
Excerto da obra A Grande Descoberta, de César Manuel Malainho de Oliveira.
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