Percurso · Passo 4 de 22
O quê — ou quem — criou o universo?
Chega o momento da prova. Tom propõe a Roger uma experiência impossível com o poema de Camões, invoca o cálculo que perturbou um ateu convicto — e mostra porque a pergunta correta sobre Deus não é quem, mas o quê.
— Estou a entender o teu ponto de vista. Mas, diz-me: tens como provar que o universo não é obra do acaso?
— Claro! — Diz Tom — O simples facto de que o acaso não existe já é uma prova por si mesma. Mas ainda poderia acrescentar uma outra.
— Qual? — Pergunta Roger.
— Caro Roger faz o seguinte: reúne papéis e em cada um deles coloca cada uma das letras que constituem o poema Os Lusíadas, assim como cada vírgula, cada ponto, cada espaço... tudo. Pega todos esses papéis e entra num helicóptero. Quando estiveres bem lá no alto, lança todos esses papéis para o solo. Se o acaso existir, ele vai ordená-los todos de forma a construírem esse poema. Faz quantas tentativas quiseres. No dia em que conseguires esse feito, diz-me, e eu abandonarei a minha convicção da existência de Deus e passarei a admitir que o acaso existe e que é a causa do universo. E repara, esse poema é obra bem mais pequena e simples do que o universo. Quando conseguires, avisa-me.
Roger, sorrindo, diz:
— É uma imagem magnífica. Mas imagino que haja uma forma de tornar isso ainda mais concreto.
— Há. O matemático Fred Hoyle calculou que a probabilidade de as proteínas necessárias para a vida mais simples se formarem por acaso é de uma para dez elevado a quarenta mil. Para teres uma noção, existem aproximadamente dez elevado a oitenta átomos em todo o universo observável. Um número com quarenta mil zeros ultrapassa qualquer noção humana de possibilidade. Hoyle, que era ateu convicto, ficou tão perturbado com este cálculo que acabou por admitir que a vida não podia ser obra do acaso. As suas próprias palavras foram: A probabilidade de a vida ter surgido por acaso é comparável à probabilidade de um furacão atravessar um depósito de sucata e montar um Boeing 747. E repara — Hoyle não era religioso. Era um cientista que seguiu os números até onde eles o levaram.
— É impossível! — Diz Roger.
— Assim também é impossível que o universo seja obra do acaso.
Roger, percebendo que a sua convicção ateísta estava a ir por água abaixo, diz:
— Tudo bem, o nada não existe. O acaso não existe. Mas isso não prova que o universo seja mesmo obra de Deus.
Tom ficou entusiasmado com a questão do amigo e disse:
— O universo existe, certo? Então, o que quer que tenha criado o universo é o que eu chamo de Deus. Outras pessoas chamam de muitos outros nomes. Nomes não importam. O que importa é o ser. A causa das causas. A causa primária de todas as coisas.
Roger, pensativo, diz:
— Mas Tom, chamar-lhe Deus não é dar-lhe características que não podemos provar? Pode ser simplesmente uma força, uma energia, algo impessoal.
— É uma observação legítima, Roger. E repara numa coisa — a pergunta correta não é quem é Deus, porque quem já pressupõe uma figura pessoal e humana. A pergunta correta é o que é Deus. E o que a razão nos diz é que essa causa existe, que é inteligente — porque produziu leis e ordem
— que é eterna — porque se tivesse tido início precisaria de uma causa anterior — e que é única — porque se houvesse duas causas primárias, uma seria necessariamente superior à outra, e essa é que seria a verdadeira causa primária. Chama-lhe como quiseres. O que não podes negar é o ser.
Roger, levantando a mão, diz: — Espera, Tom. Antes de aceitar isso, há uma contradição que me incomoda. Tu dizes que essa causa criou o universo. Mas a ciência diz que nada se cria, tudo se transforma. Se nada se cria, como pôde essa causa criar o universo? Ou nada se cria, ou o universo foi criado. Não pode ser as duas coisas.
Tom sorri e diz: — A lei de que nada se cria nem se destrói é uma lei que opera dentro do universo, depois de ele existir. É uma lei do sistema. Mas a causa primária não está dentro do sistema — é ela que é a causa do sistema. Foi ela que estabeleceu essa própria lei. A criação do universo não é uma transformação de energia que já existia. É a origem da energia e das leis que a governam. A conservação aplica-se ao que está dentro do universo, não ao ato que lhe deu origem. Por isso não há contradição: dentro do universo, nada se cria; mas o próprio universo foi criado.
Roger acena lentamente: — A lei vale para o jogo, mas não para quem inventou o jogo.
Tom sorri: — Não poderias ter dito melhor.
Excerto da obra A Grande Descoberta, de César Manuel Malainho de Oliveira.
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