Percurso · Passo 2 de 22
O universo é obra do acaso?
Se o acaso é apenas uma palavra para a causa que desconhecemos, resta a Roger o argumento do caos: estrelas destruídas, buracos negros, desordem cósmica. Tom responde com uma analogia doméstica — e com as leis matemáticas que tudo regem.
Roger fica pensativo e diz:
— Se o acaso não existe, se é apenas uma expressão da linguagem, produto do desconhecimento da causa de determinado acontecimento, como explicas que o universo esteja repleto de caos, de desordem, de estrelas que são destruídas, absorvidas por buracos negros, de eventos cósmicos destruidores? Como podes acreditar que o universo é obra de um ser inteligente?
Tom abre um sorriso e diz:
— A minha mulher assusta-se quando vê o meu escritório e diz que tudo está desorganizado, desarrumado, um caos. No entanto, se ninguém mexer em nada, eu sei onde cada coisa está. Quando ela arruma ou organiza o meu escritório, eu não sei de coisa alguma. Só volto a saber quando volto a colocar tudo segundo a minha ordem.
Roger dá uma gargalhada e diz:
— Mas Tom, essa analogia pressupõe precisamente o que estás a tentar provar — que há um ser inteligente por detrás da ordem!
Tom sorri e responde:
— Tens razão, Roger, e é exatamente esse o ponto. A analogia não é uma prova, é uma ilustração. O que ela mostra é que a aparência de caos depende sempre do ponto de observação. A ordem do meu escritório parece caos à minha mulher porque ela não conhece o meu sistema. Da mesma forma, o que nos parece caos no universo pode ser simplesmente uma ordem que a nossa inteligência ainda não é capaz de compreender. E repara — mesmo aquilo a que chamamos caos no universo obedece a leis matemáticas precisas. Os buracos negros, as supernovas, a expansão do universo — tudo segue leis. E as leis, como veremos, não surgem do acaso.
Roger dá uma gargalhada estrondosa e diz:
— Meu amigo, o universo é bem maior e mais complexo do que o teu escritório!
Tom e Roger não conseguiam parar de rir.
— Sim, é verdade — diz Tom — O universo é bem maior. Mas se pensares um pouco, perceberás que a inteligência do homem mais inteligente da Terra é incapaz de entender a ordem do universo. E como não a entendemos, parece-nos errado, um acaso.
Mais uma vez, Roger é apanhado de surpresa pela argumentação do amigo.
— Sim, mas as leis que regem o universo não seriam capazes de o criar e de mantê-lo?
— As leis, os códigos, são fruto de uma inteligência. As coisas são como são porque algo as fez serem assim. De onde saíram essas leis? Do nada? Do acaso? Já chegámos à conclusão de que o nada e o acaso são apenas expressões de linguagem.
Roger, pensativo, diz:
— Tens razão. Uma lei implica sempre um legislador. Não conheço nenhuma lei — nem física, nem matemática, nem moral — que tenha surgido por si mesma, sem uma inteligência por detrás dela.
Tom acena com a cabeça e diz:
— Exatamente. E repara na sofisticação dessas leis. A constante gravitacional, a velocidade da luz, a carga do eletrão — se qualquer um destes valores fosse ligeiramente diferente, o universo não existiria, as estrelas não se formariam, a vida seria impossível. A probabilidade de todas estas constantes terem o valor exato que têm, por acaso, é matematicamente indistinguível de zero. Os próprios físicos chamam a isto o problema do ajuste fino do universo.
Excerto da obra A Grande Descoberta, de César Manuel Malainho de Oliveira.
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